O cotidiano é o lugar onde se constitui o significado das palavras, a partir da circulação das formas simbólicas, permitida pela consciência possível, resultante de uma ideologia, que é impregnada, por sua vez, de estereótipos e preconceitos. O estereótipo como facilitação de aprendizagem e comunicação caracteriza um lugar social, pois são de difícil erradicação, fazem parte de uma cultura, e são transmitidos através das gerações.
A diferenciação de gêneros – homem, mulher – passa por estes aspectos. O gênero feminino independe do sexo. É mais produto da cultura, entendida como “um padrão de expectativas acerca do que são os comportamentos apropriados e as crenças para os membros da sociedade” (ANDERSEN apud MOTA-RIBEIRO, 2005, p. 16). A cultura de uma sociedade é a maneira como seus indivíduos se expressam, agem e vivem. De fato, a categoria de gênero é algo a ser aprendido. “É a partir do processo de socialização que os indivíduos distinguem o masculino e o feminino” (MOTA-RIBEIRO, 2005, p. 17), um processo ativado pelos agentes de socialização – família, pares, professores, mídia, grupos religiosos. Mais do que uma identidade, o comportamento social tem como base os estereótipos, como elementos de pressão, junto com as expectativas sociais e culturais às quais o indivíduo, ainda criança, é exposto.
Uma determinada cultura só é significativa para seus participantes na medida em que as ações e expressões manifestadas sejam significativas para os próprios indivíduos que as estão produzindo, percebendo e interpretando, no curso de suas vidas. A cultura que dá um espaço de atuação para as mulheres, nas feiras, refletindo um contexto hegemônico na medida em que não avança na divisão do trabalho, é a mesma que define a identidade feminina com base em representações estabelecidas pelo desenvolvimento das civilizações e pelo patriarcado estabelecido pela agricultura, que beneficiou o domínio masculino tendo em vista a demanda da mulher na geração e no cuidado com os filhos, enfatizado pelas tradições religiosas, mono ou politeístas que relegaram à mulher, deusas ou virgens, a responsabilidade da fecundidade e do sagrado (STEARNS, 2010).
Ainda que Martin-Barbero (2001, p. 59) veja a cultura de massa como “a primeira a possibilitar a comunicação entre os diferentes estratos da sociedade”, esta “comunicação” não significa igualitarismo, mesmas oportunidades, na medida em que “uma cultura constitui um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções”, possível graças aos arquétipos e estereótipos, que possibilitam “trocas mentais de projeção e de identificação”, encarnando valores contemporâneos de uma sociedade (MORIN, 1967, p. 15). Da mesma forma que Kellner (2001, p. 52) ao considerar como “indústria cultural” os resultados de uma cultura decorrente de um ambiente em que convivem práticas do cotidiano e práticas mediadas pelas tecnologias de comunicação, sem cargas ideológicas que termos como ‘massa’, ‘popular’, ‘elite’, ‘superior’ e ‘inferior’ poderiam refletir, embora, em certos contextos, estas distinções possam existir. Isto é, seja qual for, a cultura sempre vai refletir e reproduzir o contexto dominante. Como? Por meio dos estereótipos.
Nesse sentido, é importante diferenciarmos estereótipos de representações sociais. Enquanto os primeiros referem-se ao grupo do que é ser mulher de modo carregado de aspectos ideológicos, herdados da trajetória de desenvolvimento das civilizações, as representações dizem respeito à feminilidade, um conjunto de valores partilhados relativos ao feminino,
que servem não apenas como simplificações úteis para lidar com a complexidade e diversidade do universo feminino, mas que também podem funcionar como formas de criação de uma espécie de feminilidade hegemônica, de uma imagem mantida do feminino, que reforça uma ideologia dominante (MOTA-RIBEIRO, 2005, p. 23).
A publicidade produz efeitos de sentido que refletem valores de uma sociedade patriarcal que, bem ou mal, por força das contingências de um ambiente socioeconômico cada vez mais complexo, atravessado por uma diversidade de procedimentos técnico-administrativos, teve que mudar. Mudanças que começaram com a inserção da mulher no mercado de trabalho para atender às demandas enquanto os homens estavam nos campos de batalha, lutando pela manutenção das democracias. Mudanças que deviam atender às necessidades de um Estado que tem que crescer e, para isso, teve que inserir a mulher no processo democrático. Mas não foram mudanças drásticas, pois, para ser reconhecido e aceito, o discurso deve ter o valor cultural do receptor, e percebemos que este continua arraigado aos valores ocidentais judaico-cristãos que disponibilizam às mulheres modelos de representação aceitos passivamente como naturais e não como histórica e socialmente construídos, mais especificamente, os paradigmas ‘encarnados’ por duas mulheres centrais na tradição católica, Eva e Maria, a mulher-objeto e a mulher-mãe (MOTA-RIBEIRO, 2005, p. 26).
Nesta discussão, retomo elementos de resistência ou aceitação, ou, ainda, de negociação e mediação, na linha de Fiske (1999, p. 14), para quem “o discurso é um ato social que pode promover ou se opor à ideologia dominante”. Ao falar de identidade como resultante de um “processo de construção social ocorrendo sempre em um contexto marcado por relações de poder”, Castells (2008, p. 24-5) discute identidade “de resistência” talvez como “o tipo mais importante de construção de identidade em nossa sociedade”, que se funda no coletivo, nos grupos sociais, em resposta a uma descaracterização dos processos identitários tradicionais. A mulher que atua em várias frentes de trabalho, uma mais formal, durante a semana, e outra menos institucionalizada, aos finais de semana, está de certa forma no limite de uma identidade de resistência e conformidade. Entre o que se espera dela como mulher, na proximidade com artigos culturalmente de interesse das mulheres, confecções, artesanato, culinária, e da necessidade de sobrevivência e subsistência econômica da família.
Na sociedade midiatizada, as dinâmicas de negociação e oposição se tornam mais possíveis e mais explícitas pela mudança das situações dos receptores oriunda das possibilidades tecnológicas, a saber: facilidade de intercomunicação, rapidez de recebimento e envio de fatos, opiniões e percepções, multiplicidade de formatos, não só voz e texto, mas também imagem estão acessíveis ao indivíduo comum, que as usa e manipula ao bel prazer. Entretanto, até que ponto isto está acessível a esta mulher que enfrenta jornadas duplas, e até triplas? Assim como o trabalho, importante elemento de reconhecimento do sujeito na sociedade, ainda que pela sua capacidade de produção, mão de obra operacional, também nos fazemos sujeitos-agentes pelo consumo, determinando posições sociais e identidades pessoais (no auge do período da sociedade industrial, os indivíduos se identificavam e eram identificados a partir dos vínculos empregatícios – fulano que trabalha em ‘x’ empresa, o vizinho que é encarregado de seção da empresa tal). Neste domínio, está incluída a inserção cidadã como consequência de uma prática social que permite que os indivíduos sintam-se parte e construam vínculos com o momento e local em que vivem. O consumo como um direito do cidadão deve ser compreendido do ponto de vista de um elemento de modernização, de formação/educação, de sociabilidade compartilhada, sendo relevante nos diversos aspectos da vida social.
CIDADANIA, TRABALHO E CONSUMO
As análises apresentadas neste estudo indicam que ser cidadão inclui exercer o direito do consumo simbólico, cultural, definidores do consumo material. Pensar o cidadão hoje exige articulação entre Estado e mercado de forma a contemplar “as diferentes modalidades de cidadania nos velhos e nos novos cenários, mas estruturadas complementarmente” (GARCIA CANCLINI, 1996, p. 24). As maiorias, hoje compostas por minorias, devem ser atendidas nos seus direitos de “representantes de uma opinião pública” e que também querem “desfrutar de certa qualidade de vida” (GARCIA CANCLINI, 1996, p. 27, 28), que passa pelo acesso ao consumo em um cenário de produção fragmentada, dependente de condições de mão de obra, acordos financeiros globais, o consumo acontecendo longe dos lugares de origem dos produtos. É por meio do caráter simbólico do consumo que o indivíduo-sujeito dialoga com a sociedade do seu tempo, informando seus interlocutores a respeito de sua identidade, seus hábitos, posicionando-se no mundo. Essa relação torna-se particularmente marcante no cenário brasileiro com a estabilização econômica ocorrida no primeiro decênio do século XXI, que cria condições para mudanças nos padrões de consumo, que coloca novas parcelas da população diante de possibilidades ampliadas de opções de produtos, dos bens tangíveis aos intangíveis.
De fato, a propagação da cultura de consumo e a exposição ao consumismo internacional, como ocorreu em outros países, gerou mudanças em comportamentos de sociais que igualmente afetaram as relações de gênero (STEARNS , 2010, p. 235).
As mulheres inseridas na dinâmica social atual, acelerada e midiatizada, são instadas a se inserir em um cenário de pertencimento compulsório, a ter uma posição ativa perante os acontecimentos – e particularmente perante as relações de trabalho remunerado – sob o risco de não serem considerados “indivíduos ativos”.
Desta participação tão incentivada, faz parte o consumo, para o que a mídia é uma das vias de acesso como espaço privilegiado da articulação do simbólico e do imaginário na exposição do material. Nesse sentido, o próprio conceito de cidadania deve levar em conta esta exposição que deveria ser um momento de ampliação das possibilidades de percepção e compreensão do processo de pertencimento. Ou seja, neste contexto social ‘ser cidadão’ significa ter direito de saber, de ter acesso, de possuir, independente do que é possibilitado pelas condições colocadas pelas classes dominantes. Cidadania deve ser compreendida “como o direito dos indivíduos terem acesso, em uma sociedade democrática, aos recursos que permitem e garantem a eles plena participação na vida social” (BUONANNO, 2004, p. 345).
Para que isso se cumpra, um dos caminhos adotados, estrategicamente, é a segmentação pela personalização. Programas e conteúdos midiáticos são formatados explicitamente buscando atender ao que se ‘configura’ como o ‘perfil de seus receptores’. O que antes era dirigido ‘à massa’, mas com um foco de ‘intencionalidade’, é alardeado hoje como específico. São programas femininos, programas juvenis, jornalismo de serviço, documentários sobre ecologia etc. Essa produção midiática dirigida à mulher tem como modelo um discurso que vê na mulher um público-alvo com alto potencial de consumo, mas sua representação obedece mais a estratégias de mercado do que a uma percepção do direito da mulher em consumir e se inserir socialmente. Ainda que esses produtos midiáticos tenham diversas temáticas, estas tendem a ser tratadas de uma maneira homogênea e aparentemente antiquada, privilegiando a centralidade das atividades femininas no ambiente doméstico, de cuidados com a família. Esses dados ficam claro nos resultados obtidos em um estudo específico sobre o programa Mais Você, conduzido por Ana Maria Braga, hoje uma síntese do gênero, conduzido por Normando (2010, p. 65), temos a seguinte categorização da distribuição do conteúdo: jornalismo (50%), compreendendo reportagens informativas, factuais e de serviço; entretenimento (20%), reunindo matérias sobre cultura, celebridades, eventos e novidades; instrução (17%), tratando das temáticas de moda, artesanato e culinária; e publicidade (40%), contabilizando as inserções de merchandising tie in e a divulgação de livros, shows e espetáculos. Embora em terceiro lugar em presença percentual, a culinária é destacada pela ambientação do espaço da cozinha, encenação da apresentadora durante a realização das receitas e material disponibilizado no site do programa. Um segundo destaque é o artesanato, mostrado em aulas práticas, em geral com a própria apresentadora confeccionando o produto ou em reportagens, que explicam passo a passo como o produto é elaborado. Isso indica a importância ainda dada a estas atividades para o universo feminino. Mesmo com a abertura de novos espaços de atuação, quando se dispõe a realizar um trabalho economicamente rentável, permanece o estereótipo das atividades tradicionais (TEMER; TONDATO, 2009, p. 104). A Tabela 1 traz a distribuição das aulas de artesanato, e o que nos chama a atenção é o percentual de aulas dedicadas à confecção de produtos para casa e decoração1 (17,16%), seguida de roupas e acessórios (10,07%).
TABELA
Esta mistura de gêneros caracterizada no Mais Você resulta em uma multiplicação discursiva que dá espaço “à fragmentação cultural, à possibilidade de dizer, potencialmente, os enunciados, sem que se reconheça a existência de um enunciado de nível superior que garanta a todos em condições igualitárias o exercício desse poder” (CORREIA, 2004, p. 144), resultando que, ao tratar de artesanato, aparentemente um assunto ‘leve’, o emissor/discurso dominante dissemine e reforce sua posição ideológica.
Esta mistura de gêneros caracterizada no Mais Você resulta em uma multiplicação discursiva que dá espaço “à fragmentação cultural, à possibilidade de dizer, potencialmente, os enunciados, sem que se reconheça a existência de um enunciado de nível superior que garanta a todos em condições igualitárias o exercício desse poder” (CORREIA, 2004, p. 144), resultando que, ao tratar de artesanato, aparentemente um assunto ‘leve’, o emissor/discurso dominante dissemine e reforce sua posição ideológica.
Pensando a cidadania da perspectiva dos rótulos de preservação do meio ambiente, muitas das aulas de artesanato fazem da reciclagem uma motivação, como mostra o Quadro 1. Destaca-se também que neste conteúdo um gênero jornalístico de forte presença são as “matérias de serviço, que atualmente referem-se à preocupação em mostrar fatos e ações que possam contribuir para melhorar as condições de vida do receptor” (TEMER; TONDATO, 2009, p. 97), temáticas que estão no site do programa. A título de exemplo, tomamos a pergunta “você se considera consumista?”, publicada no Forum2, como parte de uma interação motivada a partir do tema Consumismo, caracterizado como uma “compulsão em consumir”.
Quadro 1 - Aulas de Artesanato com Mote da Reciclagem
As respostas publicadas fortalecem, utilizando-se das palavras das respondentes, o ponto de vista do programa em relação ao consumo, abrindo espaço para a voz de especialistas colocados como ‘conselheiros’ das telespectadoras. As opiniões destas especialistas, assim como das telespectadoras, são ‘recortadas’, descontextualizadas, concatenadas a partir do estabelecido, resultando em um círculo vicioso: discurso comum sobre mulher e consumo a resultados de pesquisas de mercado, a argumentos publicitários. As orientações sobre como “evitar esse comportamento mais emocional que racional” pouco fazem além de reforçar o senso comum: “comprar alguma coisa que lhe faça feliz funciona como compensação emocional”; “peça ajuda de um psicólogo ou terapeuta caso perceba que ela já está fora de seu controle”; “busque desenvolver atividades que levem você ao autoconhecimento e crescimento pessoal”; “reflita sobre suas reais necessidades”.
A argumentação utilizada atribui ao indivíduo total responsabilidade pelo seu bem-estar e do planeta: “Note a utilidade do que você está comprando, caso contrário, você será mais uma a contribuir com o lixo planetário”; “Não permita que você seja alvo das estratégias do mercado consumista”; “Sua conta bancária e o meio ambiente agradecem!” Relevante mencionar que estes argumentos, e outros decorrentes de outras temáticas, são utilizados pela apresentadora nos programas subsequentes, relembrando as espectadoras de suas responsabilidades a partir do já tratado no programa.
A leitura destes recortes reforça nossa reflexão sobre a representação feita da cidadania e do consumo pela mídia, uma mediação que promove uma negociação de significados, rapidamente reproduzidos pelas facilidades técnicas, fazendo da mesma mídia uma forte instituição de “repercussão social” (TONDATO, 2011, p. 156).
Em relação à presença do jornalismo no Mais Você, o foco é o factual, as notícias policiais, que dão o tom e a sequência para reforço da argumentação sobre aspectos de segurança, saúde, o papel do Estado. Nas chamadas analisadas, nota-se a retomada de fatos, locais e regionais, que já foram destaque nas editorias policiais ou apresentação de assuntos sem interesse direto da população, internacionais, mas que podem gerar um alerta.
Em relação à presença do jornalismo no Mais Você, o foco é o factual, as notícias policiais, que dão o tom e a sequência para reforço da argumentação sobre aspectos de segurança, saúde, o papel do Estado. Nas chamadas analisadas, nota-se a retomada de fatos, locais e regionais, que já foram destaque nas editorias policiais ou apresentação de assuntos sem interesse direto da população, internacionais, mas que podem gerar um alerta.
“Os media fazem um papel de mediação entre a realidade e as pessoas. O que eles nos entregam não é a realidade, mas a sua construção da realidade” (BORDENAVE, 2009, p. 80). Esta construção sofre, na emissão, a mediação da lógica da produção, que exige um posicionamento ideológico que responda aos interesses institucionais e empresariais. Já a recepção ocorre a partir do contexto cultural e educacional, no sentido mais amplo, do cotidiano, resultando uma interpretação e atribuição de significados, ainda que dependente de um contexto hegemônico, mediada por competências e relações sociais mais próximas dos usos e costumes que lhes dão forma.
Ainda que a abordagem da mídia siga as demandas de manutenção do status hegemônico, a sociedade cada vez mais mostra um dinamismo, transformando-se a cada dia, pressionando a produção, por meio dos índices de audiência, que refletem mudanças no perfil da recepção.3
Na lógica de produção, o parâmetro é o índice de audiência, que atrai os anunciantes e serve de argumento para justificar o tratamento dado às mensagens. Porém, não podemos interpretar a mulher-receptora como sendo alguém conformado com isso (TONDATO, 2011, p. 162).
As definições de consumo passam pelo aspecto social e apropriação de produtos. É no consumo que diferenças e conflitos entre classes sociais são explicitados, sendo também o lugar de possibilidades de transposição das diferenças pelo acesso financeiro, ainda que não exatamente realizado no aspecto simbólico. Se, politicamente, a todos são garantidos os mesmos direitos, devendo responder pelos mesmos deveres, num contexto chamado de cidadania, no consumo as forças se equivalem pela possibilidade de incorporação das classes populares à cultura hegemônica por meio de sua cultura. O consumo tem um papel-chave no domínio da reprodução social na medida em que nele a cultura das classes populares adquire sentido na sua relação com a cultura hegemônica e onde “se marcam suas diferenças em relação às outras culturas” (SANTOS TAUK, 1996, p. 39).
Falar em cidadania a partir de direitos do cidadão ao voto é ser superficial, como também é pouco falar em direitos trabalhistas, universalização e gratuidade da educação e da saúde. Estes posicionamentos apenas reforçam uma dependência do indivíduo ao Estado, a qual é repassada à sociedade como a uma entidade com corpo e alma, como quando, nas décadas mais recentes, fala-se em responsabilidade pela preservação do meio ambiente, apenas reforçando uma cidadania que, por um lado, “surge como uma consciência coletiva secularizada que transcende as divisões de classe “[...] através da criação e uma possibilidade universalista de integração”, mas que também “tem de ser reconhecida como um formato de cidadania que permite que a desigualdade entre classes sociais seja aceita, como uma “contenção de conflitos”, a mantendo-se as desigualdades sociais por meio de uma igualdade formal” (CORREIA, 2004, p. 146).
Dessa forma, falar em cidadania deve também incluir o incentivo à prática do convívio em sociedade (cidadania incentivada) em conformidade com padrões sociais e culturais. Mas outro aspecto relevante e importante para a compreensão da cidadania está na sua intersecção com as categorias trabalho, (des)emprego e direito ao trabalho:
[...] o sujeito típico da cidadania social é o cidadão-trabalhador, tanto como pagador de impostos quanto como recebedor de serviços [...]. É somente a partir da inserção no sistema de produção que o trabalhador, como membro de uma comunidade de produtores, adquire o poder social, que lhe franqueia o acesso ao poder político (SILVA, 2008, p. 81-2).
Mas a produção não existe sem o consumo. Portanto, ao trabalho, uma das atividades econômicas da sociedade capitalista pertencente à esfera pública, onde são mediadas pelo mercado, acrescentamos o consumo.
As cidadãs de interesse deste estudo estão no mercado de trabalho, exercem uma atividade produtiva, significativa na constituição da renda familiar, e, por meio dela, têm acesso ao consumo. Uma vez que ser trabalhador é condição básica para a cidadania, a atividade produtiva, seja ela formal ou informal, permite ao indivíduo inserção na sociedade e lhe garante direitos. O direito ao trabalho e, indiretamente, o direito ao consumo, formam a base para o alcance de outros diretos de cidadania, como os direitos políticos.
Entretanto, não apenas a atuação no mercado de trabalho ou o exercício de uma atividade produtiva contornam a cidadania. Observações iniciais permitem destacar que a sociedade tem vivenciado várias mudanças culturais, mas nenhuma delas conseguiu alterar o fato de que a vida econômica continua sendo organizada pela produção direcionada para o lucro. Dessa maneira, toda a inserção da mulher no mercado de trabalho informal revela a situação econômica brasileira contemporânea. Em consequência da globalização, o mercado de trabalho brasileiro sofreu consequências nas estruturas produtivas, nas formas de organização e gestão e nas relações de trabalho. Longe de um discurso planfletário, alerta-se para a questão de que o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho informal nos últimos anos é reflexo do contexto mundial deste mercado.
Do conjunto destas observações, sobressai a percepção de que o reconhecimento social do trabalho realizado é um dos pilares da relação entre cidadania e trabalho. Portanto, as maneiras como as mulheres se percebem (e são percebidas) na qualidade de trabalhadoras informais interfere no status de cidadania de cada uma delas. Nesse sentido, as feirantes/expositoras das Feiras do Sol e da Lua em Goiânia remetem a uma situação na qual as mulheres se apoiam no orgulho de ter seu próprio dinheiro ou vergonha de trabalhar em casa, mas ao mesmo tempo escamoteiam situações de trabalho de pertencimento que ultrapassam as questões relativas ao autoestima e realização pessoal.
O RETRATO FEMININO NAS FEIRAS GOIANIENSES
As diferentes metodologias utilizadas no decorrer deste trabalho de pesquisa indicam que, conforme já visto por Pinsky e Pinsky (2010, p. 266), as mulheres são beneficiárias dos avanços e conquistas da cidadania. Entretanto, em determinados momentos de ampliação dos direitos e progressos democráticos, fica claro que o processo de conquista destes direitos para as mulheres – ou pelas mulheres – não se deu de forma semelhante às conquistas masculinas. Estes elementos ganham novas proporções quando consideramos fatos frequente- mente ignorados na narrativa histórica tradicional, como a contraconcepção ou a evolução das roupas, que são elementos importantes para a melhoria da qualidade de vida das mulheres e representam vitórias (mesmo que pequenas ou localizadas) nas lutas femininas por valorização social, igualdade de oportunidades e reconhecimento de demandas específicas.
Nesse sentido, as Feiras da Lua e do Sol goianas são conquistas femininas e, sobretudo, são espaços femininos onde as mulheres buscam conquistas econômicas – e a partir daí o reconhecimento social e outras questões implícitas na cidadania. Ainda sobre as feiras da Lua e do Sol, vale lembrar que não há uma negação sobre a presença masculina. Os homens estão presentes, é verdade, mas além de serem sempre em número inferior às mulheres, têm igualmente o papel de coadjuvante. As decisões que envolvem o consumo, a com- pra e a venda dos produtos, as formas de pagamento, a escolha dos modelos e dos materiais, das receitas e da distribuição dos equipamentos são da mulher. É digno de nota que essa relação não está presente apenas nas situações em que a mulher é a proprietária do espaço, ou divide esse espaço com outras mulheres, mas também quando conta com a ajuda/participação ou mesmo tem uma sociedade formal com um homem, que neste caso em geral é também o seu companheiro. Ainda que eventualmente o marido ou companheiro esteja ao lado, ou mesmo atue na condição de coproprietário da barraca, a decisão final tende a ser a da mulher/expositora. É comum nas barracas que um homem – sócio, companheiro ou ambos – esteja presente. Eventualmente, ele se envolve no atendimento, mas basta uma dúvida específica – como a sugestão de uma pequena alteração no modelo de roupa, ou a inclusão de um ingrediente novo na mistura do suco – para que a palavra final da mulher seja solicitada.
De uma forma geral, aliás, os homens não gostam e não se sentem ‘à vontade’ no ambiente da feira. Isso fica evidente quando vemos que as compradoras que vão acompanhadas por representantes, por companheiros ou parentes declararam em suas entrevistas que vão também acompanhadas por um interminável rosário de reclamações. Essa percepção é reforçada também pela observação do ambiente: como as feiras da Lua e do Sol acontecem nos finais de semana, muitos ‘acompanhantes’ se refugiam nos setores de alimentação, preferencialmente onde está acessível à imagem de um aparelho de televisão que transmita jogos ou qualquer outra coisa que os permita fugir da sequência de compras que representa o ‘passeio’ pela feira.
As expositoras, evidentemente, também têm conhecimento deste perfil e dão atenção prioritária ao público feminino. Mesmo nas barracas que comercializam roupas para homens, a palavra final, a decisão da compra envolve a opinião ou a concretização da ação pela mulher. Aliás, também na maior parte das barracas – a exceção são as barracas dirigidas unicamente por homens, o que constitui uma pequena minoria – a presença masculina é secundária. É visível como muitos participantes se refugiam no fundo das barracas, onde não podem ser alcançados tão pelas compradoras, mas mesmo em situações nas quais exercem o papel de vendedor, na primeira dúvida ou questionamento sobre o preço, o tecido, modelo ou acompanhamentos, perguntam para as mulheres que dividem com eles a barraca.
Também nas barracas de alimentação a presença masculina é secundária, mas neste caso as diferenças são menores, pois muitas vezes homens e jovens participam rotineiramente das atividades, tanto na preparação dos pratos, como e sobretudo no atendimento. Como ficou claro nas entrevistas com as mulheres que trabalham nas Feiras do Sol e da Lua, no setor de alimentação tanto os investimentos são proporcionalmente menores, quanto os lucros são mais reduzidos. Nesse sentido, nota-se a presença masculina também na divisão do trabalho braçal, ainda que os dados não indiquem uma participação masculina equitativa quando se trata da tomada de decisões.
A presença masculina, aliás, está em grande parte relacionada com a questão da segurança. Uma voz comum entre as expositoras é a precariedade da segurança na feira: “tem segurança, mas é como se não tivesse”. A segurança citada pela expositora é a segurança contratada pelos próprios feirantes, já que muitas barracas (mas não todas) pagam esse serviço por meio de contribuições mensais. De fato, esses ‘seguranças’ não são facilmente identificados – os grupos de pesquisadoras, nas diferentes visitas as feiras, não conseguiu localizá-los. Da mesma forma, vale destacar que nem mesmo a presença ostensiva da polícia, que estaciona veículos nas esquinas das feiras de forma bastante visível, inibe o medo das expositoras. Sempre que instadas a falarem do assunto, as feirantes/expositoras reclamaram deste aspecto, muitas vezes ressalvando que um dos aspectos mais negativos deste comércio precário é o fato de terem que lidar com dinheiro.
Ainda que não tenham citado exemplos específicos, quase sempre generalizados, suas observações com expressões como “todo dia a gente sabe alguma coisa” ou “coisa ruim sempre acontece”, a questão da segurança é sempre destacada nas falas das feirantes e tem reflexos na relação das feirantes expositoras com a mídia. O crime que está nos telejornais assusta e interfere nas decisões de trabalho, forçando a busca de outras opções (em vez do uso do dinheiro) para o pagamento das compras. De fato, a maior parte das feirantes/ expositoras pesquisadas possuem equipamento para utilização de cartões, e rotineiramente fazem uso dele.
Essa relação, no entanto, remete a outras questões: a primeira é o impacto do telejornalismo sensacionalista neste ambiente. Ainda que grande parte das mulheres negue assistir rotineiramente aos telejornais de conteúdo mais sensacional/policial, esse conteúdo não é desconhecido, pois chega até elas por meio de um acesso eventual a essa programação e pelos comentários e repercussões que geram entre o público. O sentimento de desproteção, da ausência de eficiência do Estado em garantir a segurança e as condições mínimas de trabalho é reforçado pelo telejornalismo, e insere nestas mulheres um reforço para a sensação de precariedade do trabalho na feira.
A questão da violência é também uma pauta comum entre as entrevistadas. Na Feira da Lua, que possui um serviço de rádio, a cada anúncio de que foi perdido uma carteira ou uma bolsa, segue-se o comentário de que alguém foi roubado. Em uma espécie de círculo vicioso, normalmente o assunto desperta considerações sobre crimes mais recentes (ou nem tanto), como a situação está difícil e como a segurança está comprometida, que são interrompidas pela dinâmica do trabalho em generalizações sobre a precariedade da segurança na cidade, no Estado ou no País.
A relação complexa das expositoras com o Estado também remete a outra reclamação constante, a questão da energia elétrica: “eles (os políticos, o Estado) estão sempre prometendo melhorar, fazer um sistema que tire esses fios do meio das barracas. É perigoso para todo mundo, pra mim, pro pessoal que compra...dá até medo de uma coisa ruim acontecer, um incêndio, ou uma coisa assim”.
Outro momento em que a precariedade dos espaços (barracas dos feirantes) se revela: a chuva é temida porque “espanta as compradoras”, mas também porque expõe os buracos no passeio e os limites da drenagem das praças, além de exporem o barro vermelho dos gramados. Quando chove mais forte, o sentimento é quase de pânico, pois o vento forte interfere com a fiação e levanta a cobertura das barracas. De fato, durante nossa pesquisa, no dia 08 de outubro de 2011 as mulheres sofreram com uma forte chuva que, apesar de prevista pela metereologia, trouxe perdas para as expositoras, pois molhou produtos e prejudicou as vendas. Mesmo assustadas com a intensidade da chuva, a questão foi enfrentada pelas trabalhadoras com muita queixa e muita resignação, em geral com o argumento de que quem vive da feira deve estar preparado para isso, pois essa é a única forma de sobrevivência.
É importante destacar que, embora a feira se constitua em uma sequência de barracas aparentemente dispostas sem uma lógica aparente – a única diferenciação oficial são os espaços para alimentação/comercialização de alimentos em setores separados dos demais produtos –, após algumas visitas foi possível perceber que existe uma tendência à setorização dos produtos, ou seja, produtos semelhantes tendem a se agrupar. No entanto, a dinâmica da rotatividade da propriedade das barracas – muitas são alugadas ou terceirizadas por períodos específicos –, além da precariedade na demarcação dos espaços, não facilita essa tendência.
Embora sejam majoritárias e em geral a voz dominante na tomada das decisões, a análise dos dados mostra que a opção pela feira não foi exatamente espontânea, e sim uma resposta às circunstâncias. O acompanha- mento dos dados bibliográficos indica que as trabalhadoras informais são reflexo do aumento do desemprego a partir da década de 1990 no Brasil. A decisão também teve como base as opções – elaborações identitárias – oferecidas pela mídia, que, a partir dos seus conteúdos, oferece novos padrões de modelo femininos, abrindo espaços para novas possibilidades de comportamento ou de ação concreta (de trabalho, de lazer mas também de relações sociais), viabilizando acessos antes limitados, oferecendo opções que antes não eram ‘concretas’ ou pelo menos representavam um grande desafio frente aos modelos mais comuns ou dominantes para os indivíduos (GIDDENS, 2002, p. 82).
De fato, as políticas neoliberais deste período refletiram um perfil feminino deformado, disforme e irregular:
A implantação de políticas neoliberais, pelo Estado brasileiro, nos últimos anos penalizou seguramente mais as mulheres. A elas coube parte substancial do elevado custo social do processo de reestruturação produtiva, sendo mais afetadas as famílias com chefes mulheres e filhos pequenos. [...]Este quadro é agravado porque as mulheres têm maiores dificuldades de conciliar trabalho fora de casa com as tarefas de cuidar dos filhos (MELO, 2004, p. 6-7).
O início da feira foi duro, e muitas o recordam com melancolia. No dizer das próprias mulheres, o que aconteceu foi que mulheres com baixa escolaridade e sem experiência profissional, vindas de uma cultura eminentemente goiana na qual prevalecia a noção de que as mulheres devem ser tuteladas pelos homens, foram trabalhar nas Feiras da Lua e do Sol em Goiânia, em um ambiente sem as mínimas condições de segurança, sob o conflito permanente da regularização de sua ocupação. Uma das mais antigas expositoras relembra, entre a indignação e o orgulho de ser pioneira, que, mesmo passados tantos anos, “a regulamentação das feiras é algo precário, ou seja pode ser revogado a qualquer momento”.
Assim, mesmo vitoriosas nas feiras, existe entre as expositoras o sentimento de precariedade, decorrente das próprias condições do trabalho. No entanto, trata-se também de um fato aceito com resignação, uma vez que estão conscientes de que
Mulheres e homens não têm a mesma inserção no mercado de trabalho. As mulheres estão concentradas em atividades econômicas menos organizadas, com contratos informais, 40% da ocupação feminina encontram-se nesse segmento do mercado de trabalho. [...] São tarefas que permitem arranjos diferenciados nas relações de trabalho compatíveis com a dupla jornada feminina. Os serviços englobam desde comerciárias e ambulantes, as tradicionais trabalhadoras domésticas, as professoras, as profissionais da saúde e da beleza (MELO, 2004, p. 5).
Além dos aspectos econômicos, as mulheres feirantes estabelecem com toda a população uma relação de consolidação da identidade, que ocorre socialmente, e também, por meio das informações repassadas pela mídia, toda a aceitação do que pode ou não ser feito em determinada cultura está permeada pelo lócus das trocas de informações. Nesse sentido, as ações destas expositoras feirantes reafirma a questão já conhecida de que o individualismo proposto pelo modelo neoliberal é transmutado da mídia para o restante da sociedade, que se vê obrigada a empreender. Competindo com grandes detentores de capital, estas pessoas são impelidas para o mercado informal, onde estabelecem uma competição entre si, como a que ocorre entre as mulheres feirantes que fundaram a feira, tendo com sua criação uma estreita relação, e as mulheres que chegaram depois e têm na feira o seu lócus de sobrevivência por meio da reprodução dos produtos que são mais vendidos.
Na verdade, espera-se muito da mídia e ela nos oferece apenas a reprodução. O que nos incita a estudar, pesquisar e desvelar porque o local da reprodução tem tamanha aceitação na sociedade. Vamos caminhando ao lado das minorias que, na verdade, são maiorias e contam a sua história de exclusão, sofrimento e reinserção social em busca de garantir uma sobrevida, ou possibilidades diferentes de vida.
O ESPAÇO DA FEIRA E DAS PRÁTICAS DE CONSUMO
Uma das expressões marcantes do consumo no mundo atual é a transformação dos espaços comer- ciais, que são domesticados e envidraçados, desinfetados dos andrajosos não consumidores, dos pedintes e outras categorias que não se inserem no mundo brilhante dos shoppings (ALONSO, 2006, p. 110). Os shoppings4 são espaços de “planificação da vida completa dos compradores”, uma vez que são espaços comerciais fechados, cercados ao tráfego de veículo e suas interferências, mas também totalmente cobertos e envidraçados, “construídos em vários planos, e com estrutura de acumulação labiríntica”. Estes “Espaços de reaquecimento e reencantamento comercial do mundo frio e desencantando da produção” (ALONSO, 2006, p. 111) são, de muitas formas, a antítese da feira, por essência desorganizada e barulhenta, invadida pelo trânsito5, um espaço onde as opções de consumo se defrontam com condições higiênicas distanciadas dos padrões de excelência desejáveis.
Na feira, tudo é improvisado, desde os espaços para sentar e lanchar, que invadem as calçadas, a cabine para experimentar as roupas (que muitas vezes são provadas ali mesmo, vestindo o produto por cima da roupa em uso), o banquinho para experimentar os sapatos, os espelhos para analisar os resultados. Curiosamente, no entanto, existe um sentimento de liberdade entre as mulheres que frequentam a feira, liberdade para comprar, para experimentar, mas também para tomar decisões.
De fato, como nos alerta Featherstone (2007, p. 114), os espaços das feiras também são espaços de prazer, espaços de hibridização. “As feiras são o espaço aberto para o mercado, onde acontecem as trocas comerciais num mercado local, ligado a outros mercados nacionais e internacionais”. As feiras não são, portanto, apenas guardiãs das tradições locais; são espaços de transformação da tradição popular mediante a intersecção de diferentes culturas: espaços de ‘hibridização’.
É deste processo de hibridização, do tradicional confrontado com a mídia, que surge a mulher feirante/ expositora da Feira do Sol e Feira da Lua, a quem este trabalho se refere. Elas são muitas, e sintetizá-las em um modelo não é fácil. Nesse sentido, é importante começar destacando que se trata de uma cidadã-consumidora que participa de um contexto socioeconômico cultural que inclui pelo consumo, valoriza pela aparência e que exclui pela negação do acesso. Mas é também uma mulher receptora de um contexto comunicacional que alardeia o consumo e o empreendedorismo, que redefine identidades e perspectivas. Ou seja, trata-se de uma mulher que teve sua identidade desestabilizada pelas mudanças estruturais e institucionais aceleradas, com significados cada vez mais dependentes do simbólico, cada vez mais afastados das tradições e dependentes de “traduções” (HALL. 2006, p. 87), mas que viram nesta mudança uma oportunidade para “buscar seus sonhos”, definir o seu futuro, criar opções para as próprias vidas.
Aparentemente, não se trata de uma grande ruptura, pois. como forma de ‘resolver’ estas aparentes contradições, esta é também uma mulher que optou por um modelo de convivência social, “estilo de vida” bastante convencional6. A maior parte das entrevistadas dedicou parte da entrevista para ressaltar as relações com a família e o espaço onde vive, em geral demonstrando orgulho dessa (sua?) conquista. A maior parte também se deteve nas rotinas do trabalho, que é sempre supervalorizado. Aliás, uma vez que em todas as entrevistas a questão da televisão e da mídia sempre era um aspecto importante, o fato de não verem televisão, não conhecerem temas ou assuntos era justamente o fato de ter que trabalhar muito. No entanto, convém ficar claro que o fato de temas como a preocupação com a segurança e com a política econômica sempre incluírem aspectos destacados no telejornalismo, além das referências diretas a programas de telejornalismo, mostra que esse afastamento não é tão grande quanto as entrevistadas quiseram fazer parecer.
Dessa forma, a mulher feirante/expositora da Feira da Lua, Feira do Sol e outras de menor visibilidade é uma mulher que, mesmo tendo conquistado relativa independência financeira, está apegada a padrões de comportamentos mais tradicionais, o que inclui a valorização do espaço doméstico e das relações familiares.
A estes elementos se choca, ainda que não na forma de contradição, o fato de que a mulher expositora/ feirante da Feira do Sol trabalha e sobrevive em um ambiente de convergências tecnológica e cultural, o que inclui não apenas novas formas de mediação, mas também novas formas de resistência. Nesse sentido, trata-se de uma mulher que constrói a si mesma e determina valores a partir da capacidade de resistência aos problemas diários, da capacidade de ampliação das possibilidades transformadoras de constituição das identidades, do estabelecimento da própria autoestima, ou seja, estão inseridas em um processo de “reconstrução de identidades defensivas em torno de princípios comunais” (CASTELLS, 2008, p. 27), que na cultura do consumo se traduz na participação em grupos e comunidades (de consumo, de identidade, virtuais e reais). A pesquisa mostrou que a mulher feirante/expositora pesquisada está sujeita a fluxos de imagens e sons que adentram os ambientes, privados e públicos, aproximando os indivíduos do entretenimento, da informação, da política, que atuam “reordenando percepções de espaço e tempo, anulando distinções entre realidade e imagem, enquanto produz novos modelos de experiência e subjetividade” (KELLNER, 2001, p. 27).
Trata-se também de uma mulher que é, ou se sente, parte de uma classe média atuante, que se coloca como uma trabalhadora com poder de compra e poder de decisão sobre o que consome, em um deslocamento sensível ao modelo anterior nas relações de gênero. Em parte, isso vem da própria experiência da feira, já que nela são consumidoras, mas também são pessoas que tomam decisões, e também das representações midiáticas de mulheres fortes nas quais as feirantes/expositoras buscam/buscaram se espelhar. Fechando o círculo, está a própria decisão de participar da feira, de muitas maneiras influenciada pelas mulheres/personagens apresentadas pelas mídias que, frente às adversidades, resolveram agir “tomando conta da própria vida”.
Diga-se, sobre esse ponto, que o espaço da feira é basicamente feminino: as mulheres são as compradoras, mas também são as mulheres que tomam as principais decisões dentro dos espaços comerciais: são elas que definem tecidos, modelos, preços e condições de pagamento. Enfim, são elas que tomam a maior parte das decisões comerciais. É digno de nota que essa relação não está presente apenas nas situações em que a mulher é a proprietária do espaço, ou divide esse espaço com outras mulheres, mas também quando conta com a ajuda/participação ou mesmo tem uma sociedade formal com um homem, que neste caso em geral é também o seu companheiro.
É importante destacar, no entanto, que essa transformação exige um trabalho contínuo de desenvolvi- mento das características que respondam a necessidades múltiplas de convívio social, realização profissional, identificação emocional, que se renovam a cada momento. As identidades surgem como fontes de significação para os próprios atores, mas neste caso é necessário refletir até que ponto as mulheres percebem estas mudanças, e até que ponto essas mulheres igualmente respondem às novas percepções da sua identidade, comparando-as e se deixando influenciar por representações midiáticas que retratam ‘papéis femininos’ fortemente estereotipados.
ASPECTOS ESPECÍFICOS DA RECEPÇÃO:
Entre o Negócio e o Lazer - A Importância da Televisão
Este trabalho diz respeito a uma relação entre a televisão e sua influência em diferentes aspectos da vida, identidade e trabalho de um conjunto específico de mulheres goianienses ou que residem em Goiânia, a sua maneira criadora de uma tradição – as feiras goianas – que difere de todas as demais ‘feiras livres’ por se concentrarem no comércio do vestuário e acessórios de moda, além de significativa presença dos setores de alimentação.
Para melhor fazermos essa relação, no entanto, é importante destacar que este trabalho apontou clara- mente a impossibilidade de fazer estudos de recepção da televisão analisando apenas conteúdos limitados. A dinâmica do processo indicou conteúdos que até então não estavam situados como foco central dos pesquisadores, mas cuja importância tornou impossível ignorar. Da mesma forma, a pesquisa trouxe à tona vários aspectos já conhecidos sobre a televisão, e em particular sobre a televisão brasileira, que não podem ser deixados de lado e que, portanto, serão relembrados e revistos no contexto desta pesquisa.
Inicialmente, aliás, é necessário dizer que os pesquisadores que se dedicam ao estudo sobre a televisão são permeados por muitas vertentes, muitos olhares ou muitas formas de trabalhar a televisão. Dentro deste amplo espectro, temos desde posturas de desencanto, como a assumida por Bourdieu e Sartori, a posições radicalmente críticas daqueles que têm como referência Debord e Adorno, e também aqueles que depositam suas esperanças na capacidade de decodificação/reinterpretação do receptor, como é o caso de Orosco, Hall e Martin-Barbero7.
Dito isso, é importante deixar claro que a compreensão de um fenômeno só é possível a partir de suas múltiplas abrangências, das múltiplas variáveis que possibilitaram sua concretização. “[...] o concreto é resulta- do, tal como já dizia Marx, de suas ‘múltiplas determinações’, não sendo efeito de uma causa única” (VIANA, 2005, p. 21-2). Nesse sentido, ainda que busquemos entender a importância da televisão na formação da mulher para o trabalho informal a partir de um exemplo concreto, efetivamente apresentado aqui, entendemos que essa concretização se deve a um conjunto de fatores que nem sempre podem ser delineados de forma exata. Ao contrário das ciências duras – ou mesmo o que difere as ciências sociais das ciências duras –, ao trabalhar com a realidade, com indivíduos e fatos, os pesquisadores são envolvidos por variáveis que nem sempre podem ser quantificadas e, quando o são, essa quantificação torna-se ela mesma uma qualidade a ser analisada. Dessa forma, em muitos momentos pareceu aos pesquisadores caminhar em círculos. Apenas na finalização dos dados ficou claro que se tratava de uma espiral que, a cada novo dado acrescentado, a cada nova abordagem, ampliava o entendimento da realidade apresentada. Dessa forma, a atitude teórica adotada neste trabalho envolve a compreensão de que muito foi dito sobre essa relação da televisão e da formação da mulher para o mercado de trabalho informal, mas muito ainda poderá ser acrescentado em trabalhos futuros.
Ainda sobre a percepção do grupo de pesquisadores/pesquisadoras, é importante deixar claro que a pesquisa foi realizada com base na compreensão de que se a televisão está claramente comprometida com os interesses de um modelo de capitalismo industrial avançado, isso não significa que o seu conteúdo seja desprezível ou não possa contribuir para mudanças sociais significativas. Entende-se, portanto, que a televisão não é neutra, mas também não é maquiavélica. Sendo um veículo de comunicação social amplamente dependente dos resultados da audiência – ou, dito de outra forma, do gosto dos receptores –, ela é sobretudo um veículo em permanente diálogo com a sociedade. Neste diálogo, o veículo pode estar um pouco na vanguarda, ou ter uma postura conservadora, mas de forma alguma estará totalmente distanciado da realidade social na qual está inserido. Além disso, se destaca que o consumo midiático é basicamente estético, ou seja, responde a uma construção estética na qual a qualidade das imagens se sobrepõe, ou conquista mais facilmente as audiências, do que os conteúdos. Nesse sentido também há uma clara tendência para a hibridização, perceptível não apenas pelo uso abundante de recursos e de profissionais de jornalismo nos conteúdos de entretenimento, mas também pelo uso ampliado da linguagem leve e divertida no jornalismo, pelos recursos de ilustração eletrônica e todo um aparato de sedução que se aproxima do ficcional, incluindo aí promessas típicas das novelas brasileiras de, na próxima edição (capítulo?), contar um pouco mais da história.
Da mesma forma, o grupo de pesquisadores entende que a vontade de agir como as celebridades, a “imitação prestigiosa” (MAUSS, 1974, p. 215), é uma característica antiga das relações sociais humanas, mas esse processo adquire uma nova dinâmica com o surgimento das mídias eletrônicas e particularmente da televisão, cujas imagens se tornam um “espelho a ser alcançado” (SODRÉ, 2001, p. 23).
No caso específico do Brasil, as dimensões continentais do país e as significativas desigualdades ou diferenças regionais muitas vezes fazem com que essas duas possibilidades ocorram simultaneamente em diferentes regiões. Nesse sentido também a televisão brasileira tem sido um veículo de pressão para fazer do Brasil um país mais homogêneo, se não em todos os aspectos, pelo menos nas questões relativas ao consumo.8 Neste processo, a produção televisiva brasileira produziu muito material de baixa qualidade, muito grotesco e de muito mau gosto – muitas vezes, aliás, respondendo as demandas de parcelas específicas da população. Mas também produziu material de alta qualidade técnica, estética e de conteúdo. Nos estudos sobre televisão, a tendência é se fixar no conteúdo de baixa qualidade, o que pode simbolicamente ocultar o ‘lado bom’ da televisão. Neste estudo, a intenção não foi fazer juízos de valores ou de analisar a legitimidade das diferentes narrativas que caracterizam o veículo, mas antes ver como o conteúdo da televisão se insere na vida social de um grupo específico de trabalhadora.
Nesse sentido, convém lembrar também que a televisão de sinal aberto, sobretudo o modelo de televi- são de sinal aberto implantado e adotado no Brasil, é um porta-voz eficiente da cultura mundializada e dos aspectos macroeconômicas que envolvem o que se chamou de Globalização, ou seja, uma dinâmica de trocas físicas e simbólicas, de mercas/mercadorias que transcende as fronteiras nacionais. Mais do que anunciadora deste contexto de Globalização, a televisão atua como formadora deste contexto, inserindo novos indivíduos no processo de produção e consumo, ao mesmo tempo em que apresenta de forma sedutora novos padrões de comportamento e de relações sociais. Essa relação fica clara no discurso das feirantes/expositoras da Feira da Lua e do Sol, que ainda guardam na memória afetiva personagens, temas, assuntos, modelos de uma vida que já não tem mais – e que também aparentemente não desejam.9
Da mesma forma, reconhecemos que o conteúdo da televisão está predominantemente voltado para o entretenimento, com a valorização de conteúdos que produzam no público uma sensação de relaxamento e conversação simulada. Mas esses conteúdos não são neutros. Há neles uma imanência, uma permanência que vai além da memorização, que gera desejos e fomenta planos – e que portanto altera o indivíduo a partir de vários aspectos, das suas próprias ambições, da sua percepção simbólica do real, nas narrativas de suas próprias vidas. Nesse sentido, o conteúdo do entretenimento, e particularmente o conteúdo ficcional, é mais permanente do que o conteúdo informativo e, em alguns casos, do que o conteúdo voltado para e educação. Os resultados da pesquisa apontam além dessa dimensão o uso econômico destes conteúdos pelos receptores, que se apoderam deles para reconstruir não apenas os produtos colocados à venda nas Feiras do Sol e da Lua, mas também suas próprias vidas.
É importante destacar que essa relação de apreensão de conteúdos – sejam eles ficcionais ou jornalísticos – não se dá de forma linear ou simplificada: a mensagem da televisão também é reinterpretada a partir da subjetividade dos diferentes grupos sociais. No caso das mulheres goianienses, e em especial das feirantes/expositoras da Feira da Lua e do Sol, os aspectos conjunturais, os aspectos ligados à modernização do país e ao aceleramento da industrialização (mesmo que retratando outras regiões do país) foram elementos fundamentais para a reconfiguração das posturas individuais de grupos de mulheres que buscavam alternativas para se inserir no mercado produtivo e no mundo do consumo. Fica claro, portanto, que a televisão (eventualmente em conjunto com outros meios) é também uma fonte de conhecimentos e fator facilitador dos processos de adaptação dos indivíduos às mudanças sociais. Esse conhecimento, embora não acadêmico, não é menos importante para as escolhas e para a tomada de decisões de múltiplos aspectos da vida.
Dessa forma, o estudo sobre a recepção da importância da televisão na vida das feirantes/expositoras indica que a influência da televisão vai muito além da formação de agendas ou da imitação de modismos. Uma vez que os processos simbólicos e comunicativos são determinantes nos processos de sociabilidade, as respostas provocadas pela televisão devem ser compreendidas como processos cumulativos e complementares (a revista feminina complementa a novela, que por sua vez se relaciona com o telejornal). Ainda que os emissores veiculem ‘programas’ com diferentes conteúdos e aparentemente desconectados, e a própria percepção seja segmentada (o que, nesta pesquisa, pode ser exemplificado pelo uso objetivo que as feirantes fazem dos modismos expostos nas novelas), os resultados destes conteúdos vão além do imaginário das mulheres pesquisadas, uma vez que geram efeitos em longo prazo, que se refletem em mudanças de atitudes e ações concretas. Ou, ainda, a mídia trabalha com um tipo de poder, o poder simbólico, e suas relações sociais são permeadas pelo poder, ou pela força potencial para mudar a realidade.
Embora reconhecendo que o consumo da televisão é estético e, portanto, aparentemente superficial, é importante destacar como essa estética se impõe na vida dos produtores e consumidores das Feiras do Sol e da Lua de forma nada superficial, uma vez que cria uma dinâmica que envolve aspectos profundos como a autoimagem (das produtoras e das consumidoras), de seu sentimento de pertencimento a uma nova sociedade marcada pelo consumo e pelo culto à beleza. Analisando de forma mais ampla os resultados obtidos, alguns elementos indicam de forma clara que as mulheres trabalhadoras feirantes/expositoras da Feira do Sol e da Lua têm uma relação complexa, e eventualmente contraditória, com a televisão.
Enquanto objeto-fetiche, ela é um desejo de consumo. Situada na dimensão do consumo, a televisão de tela grande, o modelo mais avançado do momento, é para as mulheres trabalhadoras um símbolo do sucesso profissional, quase um troféu que ostentam para mostrar/demonstrar que “tem uma boa qualidade de vida”. Essa relação é exposta como forma de justificar o desconforto de ‘ser feirante’, um preconceito que está arraigado mesmo entre as proprietárias de barracas que possuem outros interesses econômicos (fábricas/confecções de pequeno e médio porte, lojas em outros setores da cidade, incluindo alguns bairros cujo comércio não é necessariamente voltado para a revenda dos produtos). Fica claro que participar das feiras, mesmo consolida- das como espaço de comercialização, ainda representa um pequeno constrangimento, que evidentemente é superado pelo reconhecimento da importância econômica desta participação.
Ainda que o aparelho seja um objeto-fetiche para as expositoras/feirantes, a ação de ver televisão é considerada por elas algo menor, algo para quem tem tempo para o lazer (ao contrário delas, que se dedicam ao trabalho). Assistir televisão pelo prazer de assistir é visto pelas expositoras/feirantes como algo do passado, de uma vida que elas deixaram para trás quando entraram no mundo do trabalho. Mesmo quando confessam assistir televisão – e nenhuma confirmou que o faz com regularidade –, a confissão é seguida de uma justificativa: precisa ver o que está acontecendo no mundo ou acompanhar a novela para ficar de olho nas novidades da moda, ou ainda aprender alguma coisa que ajude com a família.
Os exemplos citados acima são intencionais, e mostram as três dimensões que tem simbolicamente para as feirantes/expositoras o conteúdo televisivo.
Em primeiro lugar está a dimensão do trabalho, que curiosamente é, para essas mulheres, a telenovela. Todas reconhecem neste espaço o lugar onde a moda acontece, onde o que vai ser usado é apresentado às consumidoras. Neste sentido a novela é instrumentalizada – muitas entrevistadas acompanham os capítulos com bloquinhos de notas ou de desenho para copiar modelos e detalhes, para entender os lançamentos de cores e de tecidos. Ainda que algumas busquem sugestões de modelos em revistas ou mesmo na Internet, o referencial é sempre a novela: procuram-se os artigos ou dados sobre as novelas que estão no ar, sobre as atrizes/personagens que mais chamam a atenção do público. A novela é instrumentalizada também em outro sentido, os dias em que estão previstos festas, casamento e ocasiões especiais são mais vistos, pois têm maior chance de trazer novidades. Da mesma forma, alguns personagens – e nem sempre os mais destacados na trama – são vistos como lançadores de modas/ modismos, tanto no aspecto de novidades, como em algumas situações antimoda, ou moda protesto, que resulta de personagens específicos (ou com motivação específica) que caem no gosto do público. Também na percepção das feirantes/expositoras, existem as novelas que lançam moda e tendência (a mais citada é a novela que vai ao ar após o Jornal Nacional, na Rede Globo de Televisão) e as novelas que acompanham as tendências (novela do horário das sete horas da Rede Globo, mas neste caso foram também citadas em grande número novelas de outras emissoras); espaços para jovens (Malhação) e até mesmo tendências para esporte e roupa íntima. Neste último ponto, aliás, foram nominadas atrizes/personagens que, segundo as feirante/expositoras (e, em particular, as que vendem roupa íntima) são sensuais. Uma das entrevistas chega mesmo a comentar que “quanto mais vadia”, melhor são as roupas íntimas apresentadas, e “mais ideias a gente pode ter para fazer”.
Em primeiro lugar está a dimensão do trabalho, que curiosamente é, para essas mulheres, a telenovela. Todas reconhecem neste espaço o lugar onde a moda acontece, onde o que vai ser usado é apresentado às consumidoras. Neste sentido a novela é instrumentalizada – muitas entrevistadas acompanham os capítulos com bloquinhos de notas ou de desenho para copiar modelos e detalhes, para entender os lançamentos de cores e de tecidos. Ainda que algumas busquem sugestões de modelos em revistas ou mesmo na Internet, o referencial é sempre a novela: procuram-se os artigos ou dados sobre as novelas que estão no ar, sobre as atrizes/personagens que mais chamam a atenção do público. A novela é instrumentalizada também em outro sentido, os dias em que estão previstos festas, casamento e ocasiões especiais são mais vistos, pois têm maior chance de trazer novidades. Da mesma forma, alguns personagens – e nem sempre os mais destacados na trama – são vistos como lançadores de modas/ modismos, tanto no aspecto de novidades, como em algumas situações antimoda, ou moda protesto, que resulta de personagens específicos (ou com motivação específica) que caem no gosto do público. Também na percepção das feirantes/expositoras, existem as novelas que lançam moda e tendência (a mais citada é a novela que vai ao ar após o Jornal Nacional, na Rede Globo de Televisão) e as novelas que acompanham as tendências (novela do horário das sete horas da Rede Globo, mas neste caso foram também citadas em grande número novelas de outras emissoras); espaços para jovens (Malhação) e até mesmo tendências para esporte e roupa íntima. Neste último ponto, aliás, foram nominadas atrizes/personagens que, segundo as feirante/expositoras (e, em particular, as que vendem roupa íntima) são sensuais. Uma das entrevistas chega mesmo a comentar que “quanto mais vadia”, melhor são as roupas íntimas apresentadas, e “mais ideias a gente pode ter para fazer”.
Seja qual for o setor, roupa, roupa íntima, assessórios (bolsas, cintos, sapatos e bijuterias), o produto acompanha o nome do personagem e eventualmente da novela. No caso das bijuterias, são feitas até mesmo etiquetas de preço com o nome da novela. Em outros produtos, como roupas e outros tipos de assessório (bolsas, sapatos, cintos), é colocado em destaque a foto do personagem usando o modelo. A relação é tão significativa que, quando a novela está chegando à última semana, é feita uma pequena liquidação das peças que foram etiquetadas com ela.
As feirantes/expositoras reconhecem que a rapidez da novela é parte do processo, mas naturalizam essa relação com a moda “moda de feira é assim mesmo, hoje é tendência amanhã é encalhe”. Reconhecem também que possuem uma relação frágil com “o que é lançado na televisão”, que “está no gosto dos grandes”. A questão é mais séria para quem trabalha com confecções, pois embora sem verbalizar diretamente de forma mais clara, reconhecem a industrial têxtil (fornecedora de matéria prima) tem um diálogo direto com as grandes emissoras que afetam a dinâmica da sua produção.
Ao sentido imediato da relação consumo-produção, junta-se, no entanto, outro sentido, em geral colocado subjetivamente: o desejo de independência, da segurança econômica, do brilho e da beleza das mulheres da novela. As mulheres expositoras têm uma relação clara com a beleza enquanto produto – a beleza enquanto um esforço e um investimento para ser bonita, mas isso não torna esse objetivo menos desejado. No entanto, a relação mais direta é a questão da segurança econômica – o ter dinheiro para fazer tudo que desejar, inclusive ser bela. A busca dessa segurança é que motiva o trabalho e está presente na relação com a família – “a gente deixa os filhos para trabalhar aqui para poder dar o melhor para eles”.
Trabalhar na feira é também trabalhar com a família, e são muitos os casos de irmãs ou parentes que trabalham juntas e mesmo mães com filhas. Neste caso, principalmente quando a mãe já está na feira há mais tempo, as filhas têm algum tipo formação profissional e/ou formação universitária. Varias entrevistadas até mesmo trabalharam nas suas áreas de formação, mas voltaram para a feira e para o negócio da família em função dos ganhos econômicos. A formação desejada pelos pais, muitas vezes inspirada pela mídia, e conquistada a partir do trabalho nas feiras, nem sempre resulta em um ganho real, pois a nova geração da família ‘volta’ para a feira. Ainda sobre o processo de formação, é curioso notar que, quando os filhos voltam para a feira, a sua formação não tem relação com a atividade. Durante as entrevistas, foram encontradas pedagogas, psicólogas, licenciadas em várias disciplinas, mas ninguém formado em design de moda ou Administração de Empresa, ou qualquer atividade que tivesse ligação direta com a atividade da feira.
Trabalhar na feira é também trabalhar com a família, e são muitos os casos de irmãs ou parentes que trabalham juntas e mesmo mães com filhas. Neste caso, principalmente quando a mãe já está na feira há mais tempo, as filhas têm algum tipo formação profissional e/ou formação universitária. Varias entrevistadas até mesmo trabalharam nas suas áreas de formação, mas voltaram para a feira e para o negócio da família em função dos ganhos econômicos. A formação desejada pelos pais, muitas vezes inspirada pela mídia, e conquistada a partir do trabalho nas feiras, nem sempre resulta em um ganho real, pois a nova geração da família ‘volta’ para a feira. Ainda sobre o processo de formação, é curioso notar que, quando os filhos voltam para a feira, a sua formação não tem relação com a atividade. Durante as entrevistas, foram encontradas pedagogas, psicólogas, licenciadas em várias disciplinas, mas ninguém formado em design de moda ou Administração de Empresa, ou qualquer atividade que tivesse ligação direta com a atividade da feira.
O uso instrumental da novela aparentemente roubou das expositoras/feirante o prazer de ver a novela. Uma fala comum entre elas é que, no passado (quando tinham tempo ou não tinham que ficar de olho nas novidades), acompanhavam as tramas e gostavam de ver o que “ia acontecer”. Nesse sentido, algumas justificam a ausência deste acompanhamento pela crítica “antigamente era melhor”, “valia a pena ver”, “as histórias eram melhores”, mas a maior parte coloca a culpa no trabalho, que não deixa ver todo dia, ou que transformou a novela em uma obrigação. De fato, para a maioria, no momento atual a novela é trabalho, é obrigação, é “caderninho de um lado e olho vivo do outro” para levar à feira, mais rápido que a concorrente ao lado, o próximo sucesso da temporada.
Se a novela é trabalho, no discurso das entrevistas o jornalismo é um prazer, é o tempo de relaxar e ver o que vai pelo mundo. Embora não sejam fiéis ao telejornal, a maior parte das entrevistadas não vê diariamente, e sua assistência esteja condicionada a momentos e interesses específicos, as expositoras/feirantes gostam de ver “pelo menos um” telejornal. No entanto, como já afirmado, a associação de um conteúdo ao lazer não significa que esse conteúdo seja neutro, ou que não ocorra uma apreensão deste conteúdo, ou mesmo uma apreensão crítica.
De fato, as críticas aos telejornais, ou ao conteúdo dos telejornais, estiveram mais presentes no discurso das expositoras/feirantes do que as críticas às novelas. Muitas críticas estão diretamente ligadas ao conteúdo, mas não há um discurso único: as críticas oscilam desde reclamações sobre os assuntos – “muita coisa que não interessa”, da linguagem “monte de coisa que a gente não entende” e do enquadramento “só sabe falar mal”. O telejornal mais citado é o Jornal Nacional, mas a maior parte das histórias tem origem nos telejornais sensacionalistas de diferentes emissoras, em relação aos quais é perceptível uma indistinção entre o que é nacional, regional ou local. Percebe-se, portanto, que, ainda que o Jornal Nacional seja o telejornal de referência das feirantes/expositoras – ao qual elas recorrem para dar credibilidade à própria ação de ver o telejornal10 –, no dia a dia destas mulheres também estão presentes outros telejornais de caráter mais sensacionalistas. A maior parte das observações refletem que a recepção deste telejornal é, em geral, pouco atenta, marcada pelo desinteresse pelo conjunto do conteúdo e uma apropriação apenas superficial, voltada para a obrigação de estar informada e pelo sentimento confortável (e não necessariamente real) de que está acompanhando “o que acontece no mundo”.
Aliás, percebe-se claramente que é do acompanhamento destes telejornais que surgem as ‘pautas do dia’, ou seja, os temas de conversa entre as feirantes/expositoras e seus colegas de trabalho, seja na própria barraca ou com os demais feirantes. Em muitos casos, a equipe observou também o surgimento de temas de violência na conversa com os compradores.
No que diz respeito ao conteúdo dos telejornais, ou seja, temas e assuntos que chamam maior atenção das receptoras feirantes/expositoras, são postos o destaque dado à corrupção e à violência. Nesse sentido, é interessante observar que algumas até justificam que “não é culpa do telejornal”11, pois eles só mostram o que “está acontecendo”. A corrupção é vista com desprezo e sempre acompanhada por cobranças políticas relativas à infraestrutura da feira, em geral relembrando promessas sobre mais recursos para a ligação das barracas na iluminação, e aspectos múltiplos que envolvem o próprio funcionamento da feira, em uma percepção direta de que o dinheiro desviado poderia ser usado em benefício da população e, neste caso, especificamente da própria infraestrutura da feira. Ainda sobre esse ponto, a questão da corrupção levantou uma questão indireta, que diz respeito aos impostos. Além de reclamações generalizadas sobre o valor dos impostos, muitas feirantes/ expositoras reclamaram que “não entendem como funcionam”, que gostariam de ter maiores explicações sobre o que pagar e quando pagar, e outros aspectos ligados à taxação das vendas. Muitas se sentem impotentes em relação a este tema e, ao mesmo tempo em que entregam essa responsabilidade a outras pessoas (um contador ou, em pelo menos um caso, ao marido/sócio), reclamam que gostariam de uma maior orientação para superar esse sentimento.
A questão da violência foi a mais destacada nas entrevistas das feirantes/expositoras, superando até mesmo a corrupção. O tema quase sempre é pontuado de histórias de roubos, com ou sem agressão, das quais as mulheres são vítimas. A maior parte das histórias tem pouca ou nenhuma relação com a feira, mas tem vivo destaque na memória destas mulheres. Histórias de repercussão nacional, crimes de maior impacto envolvendo famílias da classe média, além do famoso crime da mala em Goiânia, são quase sempre lembrados, mas geralmente vêm acompanhado de citações sobre crimes mais recentes, de menor impacto, vistos “essa semana mesma” no telejornal, ou de sentimento geral de que a criminalidade está aumentando, que a vida está cada vez mais difícil e/ou mais violenta.
Embora a maior parte relembre apenas casos de furtos ocorridos durante a feira, o sentimento de insegurança é um ponto comum entre as entrevistadas. A preocupação em lidar com dinheiro em espécie durante a feira12 também é um elemento comum, e a presença de segurança da feira da e da própria polícia13 não diminui o sentimento de vulnerabilidade que está presente entre as comerciantes. De fato, muitas justificam a presença de outras pessoas na barraca (maridos, companheiros ou parentes, além de outras presenças femininas) como forma de inibir o roubo ou aumentar a sensação de segurança.
No geral, os discursos sobre a questão da corrupção e da segurança acabam convergindo – a polícia poderia ser melhor, mais eficiente ou mais bem equipada, ou o país poderia ser melhor “ter mais emprego, mais escola”, se os “políticos” não roubassem tanto. A essa crítica, no entanto, não se somam propostas de ação. Pelo contrário, a perspectiva é de distanciamento – entre eles (políticos ou polícia) e nós, feirantes/expositoras/povo –, um deles algoz (pelas ações e/ou pela falta de ação) e outro, vítima. Na visão das entrevistadas, o mundo ao qual pertencem é o mundo do trabalho, do esforço para ganhar dinheiro e construir uma vida melhor para si e para os filhos, estando o mundo da política (e até mesmo da violência) em outra esfera, da qual se sentem afastadas. Aliás, é justamente a eventual invasão do mundo da violência no seu dia a dia que representa a grande ameaça para as feirantes/expositoras.
Para as feirantes/expositoras, ver o telejornal também representa estar informada sobre economia. Esse, aliás, é um ponto de volatividade nos discursos. A postura assumida pelas expositoras/feirantes é a fragilidade econômica dos seus produtos: as próprias produtoras admitem que o que é vendido na feira tem a marca da baixa qualidade (o que, argumentam, nem sempre é verdade), é a modinha, o que é de consumo rápido e descartável. A escolha certa do tecido, do detalhe, da matéria-prima é a diferença entre o lucro e o prejuízo. O pior erro é comprar para estocar – na feira, tudo é rápido –, mas não ter o produto quando procurado é, claro, também prejuízo.
Nesta equação difícil, muitas admitem que trabalham com a intuição, mas lembram que toda notícia sobre crise afeta as vendas, que toda informação negativa (verdadeira ou não) é um alerta para os negócios. Embora o acompanhamento das crises e das questões financeiras não seja objetivo ou mesmo sistemático, as feirantes/expositoras incluem em seus discursos preocupações genéricas com a(s) crise(s), com a situação no mundo e com o comércio globalizado.
Sobre esse ponto, duas observações são necessárias, quais sejam:
Além da presença das feirantes/expositoras ‘legalizadas’, com licença na prefeitura e barracas expostas de forma mais ou menos organizada, uma grande quantidade de ambulantes também vendem seus produtos nas feiras. Sua atuação ocorre nas áreas mais diversas, como frutas da estação, pipoca, algodão doce, capa para celular, sutiã-invisível, enfeites para o cabelo, lenços, enfim, de tudo um pouco. A relação destes ambulantes com as feirantes/expositoras regulares não é boa. De forma geral, elas atribuem a eles os roubos e problemas que pontuam a feira, reclamando que obstruem as passagens e atrapalham as vendas. Umas poucas lamentam a situação irregular dos trabalhadores, mas o vínculo destes indivíduos com a falta de ação do Estado (que não fiscaliza, ou não se preocupa em arranjar trabalho para eles, ou não pune os desocupados etc.) é sempre presente. No discurso das feirantes/ expositoras, quanto maior a crise, maior a presença dos ambulantes: “é só o telejornal dizer que a coisa está feia que eles aparecem”.
O produto de origem chinesa, os ching-ling, são objeto de temor dos feirantes. Quem trabalha com confecção se defende dizendo que “a nossa moda é diferente”, mas quem vende bolsa e assessórios já sente a concorrência. Mesmo os revendedores de produtos importados14 – em geral trazidos de São Paulo – reclamam. E não sem razão, no meio da rua que divide a Feira da Lua em duas partes, um vendedor de ocasião oferece bolsas de origem chinesa por menos da metade do material vendido na feira. Não por acaso, notícias sobre a China chamam a atenção e, embora ainda em tom de brincadeira, a invasão chinesa vez por outra é mencionada.
Outra preocupação no telejornal é a previsão do tempo – as feiras são em céu aberto e, quando chove, o movimento diminui. As feirantes reclamam que nem sempre a previsão acerta, mas quando o telejornal diz que vai chover, fica claro que o movimento cai. Quando a chuva acontece – ou existe a previsão de chuva –, algumas decisões estratégicas devem ser tomadas: muda principalmente a quantidade (e eventualmente até o tipo) de produto que será levado à feira. Esse cuidado é comum para quem trabalha com moda e acessórios, mas é fundamental para as feirantes do setor de comida. Em algumas barracas, a estratégia normal é de um ‘reforço’ do material a ser vendido no meio da feira (como o espaço é pequeno, no decorrer da feira é feita uma nova entrega de bolos, pães etc), mas quando a chuva acontece, o reforço é cancelado. No setor de alimentação, até mesmo a quantidade de mesas e cadeiras à disposição dos consumidores é reduzida quando o tempo está feio e diminui sensivelmente nos dias de chuva. A chuva de vento, a tempestade, é o pesadelo dos feirantes15.
Aos usos instrumentais e à recepção objetiva do telejornal, soma-se outro aspecto, menos verbalizado, mais ainda assim presente no discurso. Para as feirantes/expositoras, o telejornal é uma espécie de “janela para o mundo”, um novo mundo, mais ágil, mais nervoso, ao qual elas têm que se adequar. Trata-se de um mundo novo de decisões extremas, de violência extrema, mas de relações fluidas – tudo pode ser, tudo é condicional, mas também tudo é possível. É um mundo ao qual elas assistem, mas do qual não se sentem participantes, um mundo que interfere nas suas vidas, mas o qual, na percepção das feirantes, não interfere nos seus valores. Para estas receptoras, o que o telejornal coloca no ar “são só notícias”, coisas que elas devem saber, mas sobre a qual não precisam pensar. Na percepção delas, subsiste ainda a noção da teoria do espelho16, mas um espelho distante, que se pode olhar (mas não se pode tocar), que pouco ou nada influencia o ambiente real.
A instrumentalização consciente da telenovela e, em menor escala, de alguns aspectos do telejornal não se repete nos conteúdos das Revistas Femininas. Todas as entrevistadas conhecem o gênero-formato, e se referem a ele com saudade – já viram em algum momento da vida, ou veem quando tem tempo. Quando instadas a falar sobre o assunto percebe-se que existem memórias mais recentes sobre estes produtos, tendo sido citados programas que estão no ar ou estiveram no ar recentemente. No entanto, a relação com estes programas remete ao espaço da família, das relações domésticas. Essa percepção começa com a análise das feirantes que trabalham no setor de alimentação. Para elas, as receitas veiculadas nos programas femininos são muito boas e muito caras para vender na feira: “às vezes dá para adaptar uma coisa ou outra, mas eles usam muita coisa cara”. Dessa forma, as receitas são anotadas, analisadas e até adaptadas, mas o seu uso está voltado para a família e particularmente para os dias de festa, quando “dá vontade da gente fazer uma coisa especial”. Nas revistas femininas, a cozinha – o espaço físico da cozinha planejada, dos eletrodomésticos de última geração e na última moda – é o espaço do sonho, e o discurso recorrente é o desejo de ter uma cozinha igual. Esse desejo eventualmente se estende para os demais ambientes, para os móveis e objetos do cenário, para o que é anunciado no merchandising ou nos intervalos comerciais.
As feirantes/expositoras que trabalham com artesanato são as que acompanham com maior frequência estes programas, sendo o mais citado entre elas o Programa Mais Você, comandado pela apresentadora Ana Maria Braga. Neste nicho, o uso de algumas receitas/dicas ou modelos foi citado. Nenhuma entrevistada admitiu ter copiado um modelo, mas algumas admitem adaptações. De fato, algumas reclamações surgiram porque foi vinculado para todo mundo uma receita ou algo similar ao produto que estão vendendo, o que, na opinião das feirantes, afasta os compradores; “na televisão tudo é fácil, aí chegam aqui querendo comprar barato”. Houve menções eventuais de que o fato do produto ter aparecido em um programa feminino aumentou a curiosidade ou o interesse do público, é o caso, por exemplo, do suco de limão com couve, que seria benéfico ao emagrecimento, cuja receita foi incorporada ao menu da barraca de sucos. Outro exemplo eventual foi citado pela artesã que trabalha com velas e incorporou nos seus produtos símbolos oriental a partir de elementos/desenhos trabalhados em um programa feminino. Como no setor de confecções, no entanto, as entrevistadas admitem que, quando um produto aparece na televisão, seja na revista feminina ou na novela, o aumento das vendas é imediato: “adoro quando o personagem toma banho em uma banheira com um monte de velas ao lado, é venda na certa”.
As feirantes/expositoras que trabalham com artesanato têm em comum também o desejo de comparecer em um destes programas para mostrar os seus produtos ou receber uma visita da entrevistadora e/ou da sua equipe. Ao contrário do setor de confecções, e mesmo do setor de alimentação, existe entre as feirantes/expositoras dos produtos artesanais uma ligação mais sentimental com seus produtos, o que explica porque o desejo de comparecer a um programa feminino é justificado não apenas pelo fato de um possível crescimento das vendas, mas também por um desejo de exibir o próprio trabalho. Nesse sentido, também fica claro que entre os artesãos a necessidade de reconhecimento da importância da sua atividade é maior, ao passo que, entre as feirantes/expositoras que trabalham com confecção e com alimentação, esse reconhecimento parece estar mais consolidado.
Vale destacar também que, como na totalidade da feira a presença de produtos efetivamente artesanais é baixa, no conjunto de feirantes/expositoras essa apropriação é pouco perceptível.
Desconsiderando as especificidades dos produtos comercializados, fica claro que na percepção das feirantes/expositoras a revista feminina é o espaço do sonho, de uma vida doméstica idealizada, de um tempo que já não possuem para si mesma. A identificação com o formato, com as apresentadoras e com quadros eventuais é significativa, mas o uso instrumental é baixo. Quando se fala em revista feminina se entra no campo dos desejos, da vida de “dona de casa”, do maior tempo livre em relação ao trabalho, da apreciação do lazer, e de todo um conjunto de valores subjetivos que remetem a um dia a dia que não se encaixa no mundo do trabalho que estão exercendo.
Vale esclarecer, no entanto, que essa relação não é plana ou que a influência da revista feminina seja restrita. No imaginário provocado por esse produto, também estão as mulheres fortes, que domam decisões, que são os centros da decisão familiar, para as quais todos recorrem (marido, filhos, parentes) quando surgem os problemas; e é claro, o desejo subjacente de ser uma mulher com estas características. É a partir deste modelo que as mulheres feirantes/expositoras constroem de maneira subjetiva os seus comportamentos, sem perceber que ao adentrarem no mundo do trabalho, e particularmente no trabalho da feira com todos os seus limites, desafios e inseguranças, estão também abrindo mão de um modelo de comportamento doméstico que já não se encaixa nas atividades que, em função do trabalho, devem desenvolver.
Vale esclarecer, no entanto, que essa relação não é plana ou que a influência da revista feminina seja restrita. No imaginário provocado por esse produto, também estão as mulheres fortes, que domam decisões, que são os centros da decisão familiar, para as quais todos recorrem (marido, filhos, parentes) quando surgem os problemas; e é claro, o desejo subjacente de ser uma mulher com estas características. É a partir deste modelo que as mulheres feirantes/expositoras constroem de maneira subjetiva os seus comportamentos, sem perceber que ao adentrarem no mundo do trabalho, e particularmente no trabalho da feira com todos os seus limites, desafios e inseguranças, estão também abrindo mão de um modelo de comportamento doméstico que já não se encaixa nas atividades que, em função do trabalho, devem desenvolver.
Evidentemente, as entrevistadas reconhecem a importância econômica desta escolha e admitem explicitamente que os ganhos decorrentes da feira e as atividades ligadas a ela (uma vez que muitas tem lojas e/ou confecções, para as quais as feiras funcionam como vitrine) são fundamentais para a manutenção da família e para a realização dos sonhos de consumo. Em muitos depoimentos, a frase “se não fosse pela feira...” inicia a descrição das conquistas, dos ganhos econômicos decorrentes do trabalho. Além disso, há sempre um orgulho implícito do próprio trabalho, do reconhecimento da sua importância para a família e até mesmo da sua importância socioeconômica em aspectos mais amplos – como, por exemplo, do próprio posicionamento do Estado de Goiás como polo de moda, ponte de revenda de produtos para outras regiões.
Os pontos positivos embaçam, mas não apagam completamente, o sentimento das feirantes de saudades de um presente não realizado, de um destino não cumprido. Essas mulheres, agentes de uma transformação importante das próprias vidas e das relações sociais e econômicas nas quais estão inseridas são também a marca da contradição de uma sociedade em que as mudanças aceleradas deixam os indivíduos perdidos entre a vida que pensavam que teriam e a exigência de uma nova vida repleta de desafios.
Não é surpreendente, portanto, que a questão da segurança seja um dos elementos centrais das entrevistas: a insegurança da feira nada mais é do que a própria insegurança da vida, de uma vida não prevista, mas, ainda assim, desejada. Uma vida de conquistas, de ganhos, mas que também carrega um sentimento de perda.
A título de conclusão, é importante ressaltar que as mulheres feirantes não são ‘empreendedoras’ no sentido tradicional. Elas têm um negócio, são feirantes por questão de sobrevivência. De certa forma, são mais racionais do que seria um empreendedor que abriria um ‘negócio’ para fins de ganho planejado, material. Elas trabalham motivadas por questões emocionais, alimentadas/promovidas tanto pela expectativa do sucesso, quanto pela realidade da sobrevivência, da incapacidade de prosseguir no modelo anterior em que a marca era a dependência econômica.
Nesta relação, fica clara a importância fundamental da televisão na vida das feirantes/expositoras da Feira do Sol e da Lua. Essa importância está diretamente ligada a aspectos instrumentais: é o veículo pelo qual acompanham e reinterpretam os modismos, pelo qual percebem as dinâmicas econômicas e sociais do ambiente em que vivem; pela qual se localizam e organizam as suas vidas desde aspectos que consideram simples, como buscar a previsão do tempo para se preparar para as chuvas, até elementos mais subjetivos, como se preparar ou buscar entender a dinâmica dos movimentos macroeconômicos.
Sobretudo, é no aspecto não instrumental que a influência da televisão se torna mais forte. A televisão brasileira e, particularmente, o conteúdo das telenovelas, das revistas femininas e dos telejornais, foram os elementos pontuais para, em uma relação na qual não pode ser totalmente desprezado o conjunto da programação, a consolidação de um novo modelo de mulher voltada para o trabalho e capaz de tomar decisões. Nesse sentido, é importante deixar claro que seu uso instrumental, que é de inegável importância, representa a parte sobre a qual o receptor sente que tem controle, ou a qual ele ‘usa’ de forma consciente e objetiva. No entanto, o uso objetivo dos conteúdos, seja para informação, seja para o lazer, seduz o receptor para outros usos subjetivos, sobre os quais ele não tem controle, mas cujos resultados são tão ou mais importantes para as dinâmicas de formação do indivíduo para a sociedade moderna quanto os usos objetivos. Ou, ainda, ao divulgar modelos de comportamento, se consolida como elemento formador de indivíduos que devem se inserir nas dinâmicas macroeconômicas de uma sociedade mundializada.
NOTAS
1 Roupas de cama, mesa e banho, louças, objetos decorativos, hortas, arranjos florais e de frutas etc.
2 Disponível no site: <http://anamariabraga.globo.com/home/canais/canais-zen.php?id_not=4379> (2012). Fórum: site: <http:// anamariabraga.globo.com/home/forum/?p=376#comments> (2012).
3 Cf. Globo muda programação para atender a nova classe C, no site: <http://televisao.uol.com.br/ultimas-noticias/2011/05/09/ globo-muda-programacao-para-atender-a-nova-classe-c.jhtm>. Aumento de assinaturas da TV paga está aliado à classe C, no site: <http://www.jb.com.br/economia/noticias/2011/08/09/aumento-de-assinaturas-da-tv-paga-esta-aliado-a-classe-c/>. Dos brasileiros que têm TV a cabo, 43% são da classe C, no site: <http://www.dgabc.com.br/News/5906031/dos-brasileiros- -que-tem-tv-a-cabo-43-sao-da-classe-c.aspx>.
4 Os malls, “construídos em vários planos, e com estrutura de acumulação labiríntica, no final dos anos 1950”, eram “Espaços de reaquecimento e reencantamento comercial do mundo frio e desencantando da produção”, atualmente constituem um dos aspectos principais no cenário de consumo na pós-modernidade (ALONSO, 2006, p. 110). As transformações arquitetônicas dos espaços de consumo, entretanto, começaram em fins do século XIX, com o surgimento das lojas de departamento, representando uma ‘revolução nas vendas’: “uma mudança das lojas especializadas do início do século XIX para o chamado formato ‘bazar’, com diferentes mercadorias sob o mesmo teto” (BURKE, 2008, p. 32).
5 No caso da Feira da Lua, que ocorre nos dois lados de uma praça de grandes dimensões, os carros literalmente atravessam a feira.
6 “Chamamos estilo de vida como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular da auto identidade” (GIDDENS, 2002, p. 79).
7 Essa análise foi inicialmente feita por Rincon, e apresentada ao público em uma palestra realizada no dia 25 de maio de 2012, durante o Congresso da Red INAV – Red de Investigadores de Narrativas Audio Visuales, em Sevilha, Espanha.
8 Ver Kelh ( l980, p. 5-31).
9 A não ser por meio do consumo simbólico de casas de campo e atividades de lazer, ou mesmo de produtos simbolicamente vinculados, a idealização de um modo de vida que já está no passado.
10 A questão do acompanhamento do Jornal Nacional nas questões ligadas a economia será vista adiante neste mesmo capítulo.
10 A questão do acompanhamento do Jornal Nacional nas questões ligadas a economia será vista adiante neste mesmo capítulo.
11 Parte dos alunos e membros da equipe coordenadora do projeto são jornalistas ou estudantes de jornalismo. O fato de terem se identificado desta forma no início da entrevista pode ter provocado estas justificativas.
12 Ainda que a maior parte das barracas possua opção para o pagamento via cartão.
13 Em todas as visitas feitas pela equipe de pesquisadoras nas feiras, pelo menos uma viatura de polícia estava estacionada de forma bastante visível, com policiais armados, na própria feira ou nas ruas limítrofes a ela.
14 Várias barracas trabalham com roupas e assessórios ‘indianos’, mas também há revenda de bolsas e outros assessórios vindos de outras localidades fora do Estado.
15 Em uma das visitas à feira, as pesquisadoras presenciaram uma forte chuva, com ventos que derrubaram barracas. O trauma das feirantes foi visível, houve perda de mercadorias e confusão generalizada em algumas barracas.
16 Visão teórica que entende que o jornalismo é um espelho da realidade.
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