APRESENTAÇÃO
Este trabalho é o resultado de um projeto de pesquisa realizado na linha de pesquisa Mídia e Cidadania, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás, com o apoio do CNPq, inicialmente intitulado Influências da Mídia na Inserção da Mulher no Mercado Informal de Trabalho: Mulher, Cidadania e Consumo. A proposta deste estudo incluía aprofundar a análise da influência da mídia na relação entre cidadania, mulher e trabalho, tendo como foco principal perceber de que maneira e em que medida os programas femininos – ou revistas femininas na Televisão – influenciam o processo de inserção das mulheres sem formação acadêmica e/ou profissionalizante no mercado de trabalho informal. Já a proposta da pesquisa incluía aprofundar a análise da influência da mídia na relação entre cidadania, mulher e trabalho, tendo como método a Análise de Conteúdo e os Estudos de Recepção. Para esta pesquisa especificamente, o grupo de mulheres de interesse foi identificado entre as proprietárias de bancas/barracas nas Feiras da Lua e do Sol, em particular, mas também em outras feiras congêneres, que são espaços predominantemente femininos e já tradicionais na cidade de Goiânia. Essas feiras atraem um grande número de consumidores, especialmente mulheres – inclusive sacoleiras e revendedoras de diferentes produtos –, em busca de produtos com custo acessível, sobretudo em moda feminina, acessórios diversos, artesanato e produtos de alimentação tanto para consumo imediato, quanto para “levar para casa”.
Em torno desta proposta, sob a minha coordenação reuniram-se de forma permanente três pesquisadoras seniores, três pesquisadoras juniores (uma mestre e duas mestrandas) e, com um grau de participação mais eventual, alunos do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia, especialmente do curso de Mestrado, além de quatro grupos de alunos da Graduação dos Cursos de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo e habilitação em Relações Públicas – da mesma faculdade.
Essa equipe, a partir de uma organização interna definida, desenvolveu os estudos com a finalidade de identificar como alguns elementos presentes nos discursos dos chamados Programas Femininos – ou revistas
femininas na Televisão – veiculados em diferentes horários da televisão brasileira de sinal aberto são utilizados pelas mulheres residentes em Goiânia, na área circunvizinha ou área de influência, para desenvolver atividades artesanais ou semi-industrializadas que permitam a inserção e permanência delas nas chamadas 'feiras' (particularmente a Feira da Lua e do Sol) e outros espaços de comercialização, ou ainda, obter informações que as ajudem a ingressar e/ou se manter no mercado de trabalho informal, particularmente nos setores vinculados à culinária, moda e beleza.
A amplitude da pesquisa envolveu tanto aspectos quantitativos quanto qualitativos, mas sempre buscando compreender quais são as informações divulgadas pela televisão, de uma forma geral, e pelas revistas femininas, em particular, que são absorvidas e efetivamente utilizadas pelas mulheres que trabalham nestes locais. Buscou-se entender particularmente se estes programas conclamam a mulher a ganhar seu próprio dinheiro e contribuir com o orçamento familiar, eventualmente incentivando-as a atuarem no mercado informal, e de que forma isso interfere na vida destas mulheres. Partindo desse ponto, buscou-se também entender como a construída imagem de mulher independente financeiramente se reflete na busca por atividades ligadas à informalidade e nos aspectos práticos de suas atividades.
Revistas femininas veiculadas pela televisão apontam ou insinuam que produtos ou atividades artesanais ou semi-industriais podem ser comercializados e representar fonte de renda. Como ocorre a recepção dos elementos presentes nos discursos desses programas e como eles resultam em atividades que interferem ou criam condições para que este grupo particular de mulheres se insira de forma ativa na busca por uma renda própria e pelos direitos pessoais e profissionais, no exercício da cidadania e na prática do consumo, são questões que norteiam este trabalho.
Em termos mais abrangentes, a pesquisa buscou analisar como a mídia influencia nas relações de trabalho e na consolidação da cidadania entre as mulheres, tendo como problemas norteadores três questões, que são:
• as revistas femininas veiculadas pela televisão brasileira de sinal aberto efetivamente contribuem para inserir a mulher, com deficiência na formação acadêmica e/ou profissionalizante, no mercado de trabalho informal?
• Como as informações veiculadas nestas revistas interferem nas relações econômicas, profissionais, sociais, de cidadania e de consumo destas mulheres?
• O desenvolvimento de um produto – programa de televisão – específico para este público pode contribuir para melhorar as condições de trabalho e práticas cidadãs?
No decorrer da pesquisa, como deve acontecer nos estudos que efetivamente se baseiam em descobertas e não apenas na intenção de provar hipóteses aparentemente irrefutáveis, algumas relações surpreendentes obrigaram os pesquisadores a rever a proposta inicial de estudos, e ficou clara a necessidade de se incluir nesta análise questões não pensadas inicialmente na proposta do trabalho, mas que vieram à tona nas entrevistas e depoimentos do grupo analisado.
De fato, durante parte das entrevistas foi ressaltada a importância de outros produtos/programas veiculados na televisão, em especial as telenovelas e o telejornalismo. Dessa forma, ainda que a primeira parte da pesquisa se desenvolvesse conforme o previsto na proposta original, uma segunda fase destes estudos mostrou-se necessária. Da mesma forma, os dados obtidos entre as pesquisadas também levaram os pesquisadores a aprofundarem-se nas questões relativas à faixa de renda das entrevistadas.
Apesar destas informações, em alguns aspectos surpreendentes, foram mantidos os objetivos propostos na pesquisa inicial, o que inclui entender como as mulheres goianienses que participam das feiras – que possuem barracas/bancas na Feira da Lua, além de outras feiras voltadas para comercialização de confecções (Feira do Sol, Feira Hippie, Feira da Praça Universitária etc.), roupas e artesanatos – elaboram a relação com o trabalho, o emprego e a vida em sociedade; quais são os valores relacionados à independência financeira da mulher; como elas se percebem atuando na informalidade; qual a credibilidade dos programas femininos para esse público; e como as mulheres recebem as dicas e sugestões dos programas femininos.
Para responder essas questões, o trabalho foi desenvolvido em várias etapas, da seguinte forma: a primeira, referente à análise de conteúdo dos programas femininos na televisão, com ênfase nas informações e nos discursos veiculados por estes programas; a segunda, um estudo de recepção mediante entrevistas estruturadas e semiestruturadas, o que incluiu cerca de 15 visitas às Feiras do Sol, da Lua e outras com perfil similar; uma última etapa, decorrente dos resultados obtidos, que levou as pesquisadoras a reverem os conteúdos da televisão, analisando criticamente aspectos descritos pelas entrevistadas. Fechando o ciclo da pesquisa, o material foi organizado e debatido pela equipe e, a partir desta discussão, foi elaborado um vídeo sobre a feira e este livro.
Embora não prevista inicialmente, a volta dos pesquisadores ao ponto de origem da pesquisa – a análise do conteúdo da mídia – significou também o fechamento de um ciclo e permitiu o melhor entendimento da importância deste veículo na vida das empreendedoras que participam das feiras goianas.
METODOLOGIA
Uma vez que o objetivo era aprofundar a reflexão sobre o conteúdo da produção midiática na televisão e tendo como ponto de partida este conteúdo, entender o modo como as mulheres percebem, apropriam-se e aplicam as informações da mídia no seu cotidiano, particularmente nos aspectos ligados ao acesso a uma atividade remunerada e, por meio dela, à autoestima, ao consumo e à cidadania, é que se optou pela realização da pesquisa em diferentes frentes de trabalho.
Inicialmente, foi realizada uma longa revisão de literatura sobre o tema, ponto inicial de todo trabalho acadêmico. Em seguida, optou-se por uma análise do conteúdo da televisão, na qual o ponto central foram os programas femininos, ou, como fica delimitado neste trabalho de pesquisa, as revistas femininas na televisão.
A escolha desses programas ocorreu particularmente em função de suas características básicas, como a valorização da mulher e do eterno feminino, mas também em função de elementos específicos mais recentes, como a valorização do próprio trabalho doméstico e o destaque que vem sendo dado à necessidade de a mulher ter uma ocupação remunerada e contribuir de diferentes formas para a renda familiar. Dessa forma, fez-se um acompanhamento inicial dos principais programas que se encaixam neste modelo e, a partir daí, verificam-se os pontos básicos do seu conteúdo.
O passo seguinte foi o contato com as proprietárias das bancas/barracas na Feira da Lua, escolhida como ponto básico da pesquisa em virtude de sua dimensão – é a maior em número de expositores e visitantes entre as feiras deste tipo em Goiânia, ficando atrás somente da Feira Hippie, que tem um perfil misto (confecção e revenda de produtos diversos, além do setor de alimentação). Essa fase foi realizada em diferentes etapas, entre elas a aplicação de questionários objetivos sobre aspectos relacionados a perfil de renda, ocupação e outros elementos quantificáveis, e a realização de entrevistas semiestruturadas com perguntas abertas sobre a relação destas comerciantes informais com a televisão – programas preferidos, tempo de lazer, a relação entre o que veem na televisão e o seu trabalho – e, como elemento final, entrevistas em profundidade realizadas individualmente e de forma isolada (fora do contexto da feira) com um pequeno grupo de mulheres, abordando aspectos que envolviam a memória afetiva da televisão, a percepção sobre o papel da mulher na família, as relações sociais de uma forma geral e como a televisão cria e alimenta fantasias que se consolidam na percepção destas receptoras como ambições e desejos.
Sobre a metodologia de pesquisa, é importante acrescentar que estava prevista a realização de grupos focais com segmentos de mulheres que participam da Feira da Lua. No entanto, apesar de alguns encontros terem sido efetivamente agendados, as convidadas/pesquisadas não compareceram. O grupo de pesquisadoras chegou mesmo a marcar uma destas reuniões em um salão de beleza, oferecendo às pesquisadas a possibilidade de financiar tratamentos de baixo custo, mas, ainda assim, não houve interesse na participação. Os aspectos específicos desta falta de interesse serão igualmente comentados na análise de dados.
A partir deste ponto, as pesquisadoras optaram pela aplicação de questionários direcionados para dados quantitativos, a realização de entrevistas estruturadas, efetivadas durante a própria realização das feiras, ou seja, no local de trabalho do grupo pesquisado, e semiestruturadas, realizadas antes das montagens das barracas. As entrevistas foram efetuadas no mesmo período de tempo, mas não com as mesmas entrevistadas. Grupos distintos de pesquisadores percorreram partes diferentes da feira, tendo sido atribuído a dois segmentos de alunos de graduação em Comunicação a realização das entrevistas estruturadas e semiestruturadas. Em uma etapa posterior, as pesquisadoras juniores selecionaram algumas participantes da Feira da Lua e, a partir desta seleção, realizaram entrevistas em profundidade.
Coletados e tabulados os dados quantitativos e qualitativos, o conjunto do material foi analisado, considerando inclusive os resultados obtidos pelos diferentes grupos. Em uma etapa final, os grupos se reuniram para discutir resultados, realizando cruzamento não apenas dos dados obtidos, mas das inferências individuais e da análise do desenvolvimento dos levantamentos.
É importante acrescentar que o caminho metodológico – a pesquisa de campo, as análises dos dados qualitativos, em que os dados quantitativos são utilizados como uma qualidade a mais a ser compreendida – foi adotado com base na percepção de que esses métodos possibilitavam uma maior aproximação com o objeto de pesquisa – no caso, as mulheres feirantes/expositoras das Feiras da Lua e do Sol –, possibilitando
igualmente análises mais subjetivas dos dados. Dessa forma, a pesquisa teve como diretriz a
construção teórica do objeto de estudo, [de forma a permitir que o campo se tornasse] [...] um palco de manifestações de intersubjetividades e interações entre pesquisador e grupos estudados, propiciando a criação de novos conhecimentos (MINAYO, 1998, p. 54).
Ainda que em muitos momentos o andamento da pesquisa não se detivesse apenas nos limites impostos pelos métodos de trabalho, considerando as especificidades destes métodos, é importante conhecê-los de forma mais aprofundada.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
A primeira base teórica que foi considerada para o desenvolvimento deste trabalho foi a chamada Teoria dos Usos e Gratificações. Em princípio, essa reflexão teórica é considerada um desdobramento da Teoria Funcionalista, uma vez que foi desenvolvida por pesquisadores norte-americanos que, de forma direta ou indireta, também estavam envolvidos em uma perspectiva pragmática dos Estudos da Comunicação.
Ainda assim, a hipótese dos usos e das gratificações representa também uma evolução desta perspectiva, pois trabalha apoiada na visão de um receptor ativo, entendendo que a adoção de um modelo de conduta ou de ação por um indivíduo é resultante de alguma gratificação, de alguma forma de recompensa ou de conhecimento que seja útil a sua vida, tanto nos aspectos práticos – como, por exemplo, informações sobre economia e finanças que ajudem na condução dos próprios negócios –, quanto em aspectos não palpáveis, como o alívio das tensões, a construção de uma autoimagem agradável, o sentimento de participação de um grupo ou qualquer outro sentimento ou sensação que resulte em alguma forma de gratificação ou prazer.
A hipótese dos usos e das gratificações indica ainda que os meios de comunicação atuam também no reforço aos hábitos que resultam em padrões estáveis de respostas, em repetições de ações que exibam experiências agradáveis ou sensações de algum tipo de prazer – sensações de vitória ou de poder, de domínio de um conhecimento ou de reconhecimento de uma experiência, para citar alguns exemplos.
Essa hipótese ainda está enraizada em uma postura positivista das ciências sociais, mas aplicada aos Estudos da Comunicação, que se caracteriza por enfatizar as funções do uso em detrimento ao uso como função, ou seja, os estudos desenvolvidos a partir da hipótese dos usos e das gratificações, ou, como é chamada por Wolf (1988), o estudo das satisfações, que tem como objetivo entender o tipo de consumo que o público faz das comunicações de massa.
Como este trabalho indicará, as propostas de análise desenvolvidas com base na hipótese dos usos e das gratificações são mais complexas que uma simples análise de dados quantitativos, exigindo a compreensão ampla do quadro social em que os processos de comunicação a serem estudados estão efetivamente inseridos, entendendo também que as necessidades dos destinatários são consideradas uma das variáveis que delimitam os efeitos da comunicação.
Nesse sentido, podemos dizer que a pesquisa foi desenvolvida a partir de três princípios norteadores,
quais sejam:
• o indivíduo/receptor é ativo e busca nos meios de comunicação os conteúdos que melhor atendam suas necessidades e seus desejos;
• os motivos que levam à escolha de meios de comunicação e de seus conteúdos específicos estão sujeitos a
inúmeras influências psicológicas, sociais, ambientais e conjunturais;
• a exposição aos meios compete com outras formas potencialmente capazes de satisfazer/gratificar suas necessidades e anseios. Dessa forma, o indivíduo poderá escolher expor-se aos meios de comunicação ou procurar formas de gratificação a eles não relacionadas, de acordo com suas necessidades e objetivos, ou seja, a exposição aos meios é um ato intencional, não casual.
GÊNEROS E MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Além da hipótese dos usos e das gratificações, a base teórica da pesquisa também considera a questão dos gêneros da comunicação, seja dos gêneros televisivos, seja dos gêneros jornalísticos, entendendo que os diferentes gêneros abrem a possibilidade de diferentes construções de sentido.
Sentidos são produtos sociais resultantes das atividades humanas em um processo de interação social constante. Os processos comunicativos e, especialmente, as relações intersubjetivas determinam a origem do sentido, organizando e dando forma ao funcionamento da vida em sociedade. A ação da comunicação é, em si, a ação de tornar um sentido comum, a ação de transformar um estímulo em informação.
Vivemos em um mundo de processos comunicativos que se intercalam e se sobrepõem, mas que também constroem sentidos. No entanto, cada indivíduo percebe múltiplos sentidos que se agrupam e se inter-relacionam, aos quais atribui significados. Segundo a Teoria Gestalt, isso ocorre em função da reintegração, ou seja, porque o ser humano sempre percebe configurações globais, e não especificidades isoladas. É a esse conjunto de sentidos – um novo sentido – que atribuímos o termo rótulo ou gênero.
Gênero, portanto, é antecipação da construção de um sentido a com base em um conjunto articulado de sentidos, um conjunto de atribuições socialmente construídas que permitem ao indivíduo classificar experiências e conhecimentos de forma a reconhecê-los com relativa facilidade, mesmo que não estejam presentes todas as atribuições que ele vincula ao gênero em questão.
Uma vez construído, por interações sociais o gênero permite prever um espectro possível de ações e reações futuras, dando ao indivíduo elementos nos quais pode-se basear para direcionar suas ações. Os gêneros são, portanto, elementos de mediação que facilitam, organizam e antecipam as experiências na recepção dos conteúdos da comunicação, pois impedem o caos cognitivo, a desorganização mental, e constituem um instrumento necessário de economia na aprendizagem. Quanto mais complicada é a vida moderna, mais os receptores buscam se agarrar a determinados gêneros da mídia, a determinados conjuntos de conteúdo, pois eles organizam os espaços nos quais buscam as informações, hierarquizam dados, agindo como elementos de pré-decodificação que facilitam sua relação com os meios de comunicação.
A ANÁLISE DE CONTEÚDO COMO MÉTODO DE PESQUISA
A análise de conteúdo é um método de trabalho científico e uma técnica de investigação cuja origem documentada remonta ao final do século XIII1 e que está presente nos estudos sobre comunicação desde os primeiros trabalhos de communication research. Em geral, a análise de conteúdo recebe críticas dos autores ligados às tradições marxistas de pesquisa em função de uma possível vinculação com o positivismo comteano2.
No entanto, o método ganhou novo vigor nas últimas décadas do século XX em função de sua adaptabilidade à pesquisa com tecnologias eletroeletrônicas de comunicação e de uma tendência de utilização na esfera do ativismo político (FONSECA JUNIOR, 2006, p. 281). Finalmente, as críticas têm sido superadas pelos autores modernos que, assim como está sendo feito nesta pesquisa, se pautam pela noção de que “o trabalho crítico não se define pelas técnicas que utiliza” (LOZANO, 1994, p. 12) (mas pelo nível de compreensão do fenômeno que alcança).
A análise de conteúdo é também proposta de trabalho que visa superar os dados subjetivos, e se organiza a partir da sistematização imposta pelo próprio desenvolvimento dos processos de comunicação mediados (KIENTZ, 1973, p. 10). Dessa forma, a análise de conteúdo pretende sempre uma discrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação. Trata-se, portanto, da busca por dados objetivos ou, dito de outra forma, por uma análise objetiva que, desde o início, propõe-se a responder uma questão, a atingir um ‘objetivo’.
Apesar da objetividade do método, os pesquisadores que utilizam a análise de conteúdo devem trabalhar a partir de marcos teóricos profundos e bem definidos, possibilitando uma definição de conceitos coerentes e suficientes para a criação de parâmetros que possibilitem a elaboração e a aplicação de ferramentas estatísticas. O ponto central do método está na qualidade da definição dos conceitos, categorias, tipos, gêneros ou formatos, ou qualquer outra denominação adotada para qualificar, selecionar e mensurar o conteúdo da comunicação.
Obtidos os dados, a análise de conteúdo deve também buscar a incorporação de informações de outros tipos ou de diferentes procedências, como, por exemplo, dados bibliográficos.
Nesse sentido, a análise proposta neste estudo, vai se pautar pela constituição de um corpus de pesquisa, ou amostragem, que respeite concomitantemente a exaustividade, observando indistintamente todas as revistas femininas e outros conteúdos da televisão exibidos no período estudado; e a representatividade, que deve ser ampla o suficiente para garantir a presença das variáveis possíveis.
Sobre o conjunto desta análise, é importante também destacar a crítica feita por Berelson (apud Bardin, 1988, p. 20), um dos pais do método, de que a análise de conteúdo não possui qualidades mágicas e que nada substitui a colaboração de bons pesquisadores. Dessa forma, embora a análise de conteúdo se baseie em dados objetivos, não deve deixar de lado as inferências3, reproduzíveis e válidas que podem se aplicar a seu contexto (Krippendorff , 1990, p. 29).
O uso da Análise de Conteúdo não impede a utilização em paralelo com outras técnicas de pesquisa. De fato, a parceria com outras técnicas de pesquisa tem sido uma das tendências mais fortes entre os pesquisadores da comunicação latino-americanos que utilizam a análise de conteúdo4.
Além desses aspectos, a pesquisa realizada teve também como especificidade a admissão de que, para entender a comunicação de massa, é essencial a compreensão do quadro social em que essa comunicação está efetivamente inserida.
A TEORIA DA AGENDA
Para o melhor desenvolvimento desta pesquisa, que se detém também aos aspectos específicos da recepção, é necessário considerar de forma indireta a teoria da agenda, ou hipótese da Agenda Setting.
Essa hipótese defende que os meios de comunicação eletroeletrônicos apresentam ao público uma lista daquilo sobre o que é necessário ter uma opinião. Ou seja, a televisão e outros meios colocam na agenda interpessoal dos seus receptores os temas a serem discutidos, ou que se tornaram objeto de suas preocupações.
A teoria da agenda se aplica particularmente aos conteúdos da imprensa, que apresentam ao público uma lista dos principais assuntos, próximos e distantes, dessa forma construindo grande parte da realidade social. Na perspectiva da teoria da agenda, a imprensa não diz às pessoas o que elas devem pensar, mas sobre quais temas devem pensar, o que não deixa de ser também uma forma de controle. Ou, ainda, os meios de comunicação e particularmente a imprensa, não agem no sentido de persuadir – ou não apenas neste sentido –, mas, ao formar uma agenda interpessoal, delimitam as possibilidades de o receptor ver e entender o mundo ao seu redor.
A ENTREVISTA COMO MÉTODO
A entrevista vem sendo utilizada como ferramenta e método de pesquisa nos Estudos em Comunicação há muitas décadas, estando presente desde os estudos fundadores da área com a chamada Escola de Chicago. Para os estudiosos da comunicação, a entrevista é um método tradicional e relevante, pois é, em si e por si,
Particularmente para os pesquisadores da comunicação oriundos do Jornalismo, as respostas obtidas por meio das entrevistas são mais ricas e com maior potencial de análise do que as respostas obtidas por meio de questionários, uma vez que os significados das palavras são esclarecidos durante a própria entrevista, o que minimiza ou evita as distorções nas respostas. Além disso, em que pesem as diferenças entre a entrevista jornalística e a obtenção de dados para um estudo científico, trata-se de um método familiar aos graduados em Jornalismo, que facilmente conseguem transitar para essa modalidade e obter, por meio dela, dados relevantes.
O mérito da entrevista está justamente em permitir ao entrevistador a análise de critérios subjetivos, por meio de uma contínua reinterpretação dos conteúdos/fala dos entrevistados, uma vez que, durante o processo de entrevista, o entrevistado participa de um processo de co-construção do conhecimento, reformulando dados e interpretando-os ao mesmo tempo em que responde a questão proposta.
Dessa forma, os dados coletados por meio das entrevistas vão além da objetividade adquirida por dados simples de um questionário, pois são construídos em função das reflexões do sujeito sobre o que lhe é perguntado.
O método também tem o mérito de ser mais aberto e flexível, possibilitando a abertura a todo um conjunto de fenômenos passíveis de serem descritos pela experiência humana. Além disso, a entrevista, como ferramenta, é especialmente relevante porque, no momento da sua realização, enquanto pesquisador e pesquisado estão em contato direto, em um processo de comunicação interpessoal, estão também construindo significados e conceitos, que emergem e desvendam o fenômeno estudado, configurando novas zonas de interpretação de resultados.
Embora vários tipos de entrevistas possam ser usados nos estudos de comunicação, aspectos como praticidade e clareza nos resultados desejados fizeram com que nesta pesquisa se optasse pelo uso de entrevistas estruturadas, ou seja, entrevistas realizadas a partir de um roteiro previamente definido, que foi seguido pelo pesquisador, e entrevistas semiestruturadas, na qual o mesmo roteiro pode ser acrescido de novas perguntas, a critério do entrevistador, quando o entrevistado apresentou dados relevantes que não estavam previstos no roteiro original. Assim, escolheu-se a entrevista como técnica de pesquisa entendendo-se que este método é capaz de fornecer informações objetivas e subjetivas a partir de “perguntas controladas pela teoria e direcionadas para as hipóteses” (FLICK, 2009, p. 149). Ou seja, coube ao entrevistador ficar atento para direcionar a entrevista para o assunto da pesquisa no momento oportuno e ter a sensibilidade de saber quando deve interromper o roteiro original para acrescentar novas questões e, esgotado este aspecto novo, retornar ao roteiro inicialmente previsto.
Coube ao entrevistador, portanto, sobretudo provocar a memória dos entrevistados, criando situações em que as respostas obtidas sejam fidedignas e válidas; seguindo o preceito de que “[...] não se deve tentar descobrir conceitos teóricos, mas sim a esfera de vida das pessoas” (FLICK, 2009, p. 161).
Quanto à interpretação dos dados construídos durante as entrevistas, os pesquisadores consideraram que os pesquisados representam uma visão do mundo única e peculiar, e cuja análise deverá ser confrontada e enriquecida com as informações obtidas por meio das demais metodologias de pesquisa previstas no projeto.
A entrevista, portanto, é vista neste trabalho como um elemento gerador de novos conhecimentos, co-construídos com os entrevistados, que permitem delinear em aspectos amplos seus interesses pessoais, sua capacidade interpretativa de ressignificação das mídias e sua inserção social, sendo, portanto, um método adequado às necessidades da pesquisa proposta.
Ainda sobre a realização das entrevistas, convém acrescentar que o roteiro levado a campo foi elaborado após a realização da análise de conteúdo, contendo em média 15 questões que eventualmente foram ampliadas ou desdobradas a critério do entrevistador, ou ainda reelaboradas de forma que o grau de complexidade ou de exigência de detalhes para com o receptor estivesse sempre crescente. Ou seja, a entrevista iniciou-se com perguntas simples que foram sendo aprofundadas no seu desenvolvimento.
Após as entrevistas, a documentação e o registro de dados foram efetuados a partir da transcrição das gravações das entrevistas, tendo sido os dados classificados a partir de critérios determinados e temas em comum.
A aplicação dos diferentes tipos de entrevista, conforme dito, foi realizada sempre por um pesquisador membro do projeto, participante de grupos organizados de acordo com o grau de complexidade que a entrevista exigia.
NOTAS
1 O primeiro trabalho de análise de conteúdo é atribuído a uma procura sistemática pelos membros da corte suíça na análise de 90 hinos religiosos anônimos, denominados Os cantos do Sião em busca de provas de heresia (FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 280).
2 Corrente de pensamento desenvolvida por Augusto Comte, o positivismo valoriza as ciências exatas como paradigma de cientificidade e como referência do espírito humano em seu estágio mais elevado (FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 281).
4 Na América Latina, a difusão da análise de conteúdo é atribuída ao Centro de Estudos superiores em Jornalismo para a América Latina (Ciespal) por meio dos estudos em jornalismo comparados realizados por Jacques Keyser e do seu trabalho de maior impacto na região, Dos semanas em la prensa de América Latina (MARQUES DE MELO, 1972).
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