PREFÁCIO


O filósofo italiano Norberto Bobbio disse, em uma conferência em 1983, em Milão, que o futuro seria feminino, porque, segundo ele, o mundo necessita de pessoas dóceis, que tenham um olhar compreensivo para com os outros, e esses seriam atributos das mulheres. Passados quase trinta anos, ainda não sabemos dizer se a afirmação era uma profecia ou uma constatação do já dado. O fato é que, em 2012, as mulheres vivenciam uma situação singular no planeta, oscilantes entre a condição de sujeitos de poder e assujeitadas aos poderes mais banais. Com efeito, ao mesmo tempo em que temos mulheres com cargos de chefes de Estado em países importantes, temos mulheres vitimadas pela violência doméstica, cerceadas em sua corporalidade e discriminadas no trabalho, como se constata no último censo brasileiro: as mulheres recebem menos apesar de desenvolverem a mesma função que os homens.

Por isso mesmo, enquanto persistir uma situação tão ambígua com relação à mulher, livros como este devem ser comemorados e incentivados. Posições tão antagônicas, quase como “da lua e do sol”, justificam que pesquisas tentem entender o lugar da mulher na sociedade. O consumo, que muito marca a nossa época, revela facetas um tanto quanto infantilizadas do mundo feminino, ao mesmo tempo em que as produções midiáticas definem como público-alvo a mulher. A mídia concentra-se na mulher porque, segundo definiu o marketing, é ela quem faz as compras, portanto é quem se responsabiliza pela demanda que movimenta o mercado.

Entretanto, para além da definição das marcas a serem inseridas no ambiente doméstico, o papel histórico da mulher equipara-se ao do homem nas funções sociais, assumindo postos de trabalho com igual competência, igualitariamente. Mas enquanto a paternidade começa a experienciar uma ambiguidade histórica, o lugar da mulher como responsável pela geração não foi até agora superado. Nesse lugar, a mulher permanece como fundamental, a raça humana não prescinde da mulher para a sua continuidade. Ponto. Um argumento meramente biológico? Talvez sim, como ponto de partida, mas as suas reverberações em todos os campos – sociais, psíquicos, econômicos e políticos – são inegáveis e estão ai, dispostas no quotidiano dos quatro cantos do mundo a explicarem, quem sabe, as inúmeras tentativas de controle e dominação.

Diante desse fato irrefutável, e talvez por isso mesmo, o universo masculino tenta, desde os primórdios, controlar o fato singular da geração/sexualidade feminina. Elucidativo e atualíssimo é o velho estudo de Morgan, sobre o qual Engels escreveu o seu maravilhoso Origem da família, da propriedade privada e do Estado, indicando as tentativas de controle por meio das interdições da relação sexual, sempre com o propósito de resguardar a linhagem e assim manter o domínio sobre bens e propriedades.

Como é possível dizer –– como vemos com razoável frequência, e nas mais diversas áreas –– que esta é uma temática datada e que trabalhos sobre gênero estão em descompasso com o paradigma universalista da civilização atual se ainda somos obrigadas a conviver, quotidianamente, com posturas preconceituosas em nossos trabalhos, famílias e grupos? E o que falar da mulher que, para ser respeitada e conseguir um lugar no mundo masculino, passa a adotar posturas masculinas e assume mesmo um padrão comportamental exatamente igual ao já conhecido e exercido pelos homens, deixando completamente de lado a exigência humana do cuidado com o outro, com o lugar, consigo mesma, a docilidade de que falava Bobbio, que tanto a define?

Desde Aristóteles, que se baseava em aspectos médico-filosóficos para distinguir a natureza do homem (quente, seco e animado) e da mulher (fria, úmida e inerte), passando pela filosofia taoista onde o Yin é feminino – a terra, frio, a sombra, o norte, a chuva e o inferior – e o Yang é masculino – o céu, o calor, a luz do sol, o sul, a superioridade –, até chegarmos a dados demonstrativos de que a pobreza global também é feminina (já que o grupo humano na miséria é composto de 70% de mulheres), o lugar hegemônico do masculino tem pautado historicamente as nossas sociedades.

Não podemos deixar de admitir, entretanto, que há avanços na direção de um mundo mais plural. As cotas para mulheres nos partidos e o reconhecimento de que as profissões e tarefas não são atributos de gênero certamente têm produzido uma possibilidade de convivência mais ecológica. Mas é preciso sempre estar atento para o fato de que a jurisprudência nem sempre garante o movimento do tecido social e que os pré-conceitos devem ser combatidos em âmbitos para além do discurso racional. 

No horizonte do senso comum vigente na esfera pública, constituída em grande parte pela instância midiática, fica o lugar de entrincheiramento de todas nós, mulheres. E, para a grande luta, é preciso estar atento às composições armamentistas atualmente em voga. Ou seja, armar-se apenas da proposição conteudística da produção midiática não vai nos fazer aproximar da superfície que tanto toca, convence e forma o juízo comum. É preciso estar aberto para analisar as novas facetas desse fenômeno, e é para este caminho, partindo da feira livre, as Feiras do Sol e da Lua, com seus cheiros, suas cores, suas vozes e seus suores, que este livro quer nos convidar. Temos que aceitar o chamado e embarcar.



Raquel Paiva
Professora e pesquisadora, autora do livro Polícia: palavra feminina,
publicado em 2008, pela Editora Mauad, Rio de Janeiro.

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